quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poema Eborense (pela altura em que os corvos pairam sobre os humilhados voluntários)

Santa ignorância. Abençoada ausência de pensar.
Quão fútil achas que consegues ser? (Achas que sabes ser fútil?)
Por quanto tempo divagarás pela inanimidade de ser humano?

Invejo, na verdade (aos domingos), essa tua diligência pela idiotice,
só porque as tuas questões não chegam sequer à natureza da alma.
Prefiro, no entanto, sofrer pensando a iludir-me sofrendo.

João M. Sousa 27/9/2010 évora

terça-feira, 28 de setembro de 2010

(Sem título)

Gosto de escrever às escuras,
porque assim não vejo as borradas que faço.

Se no sombrio crio,
é para não me confrontar com aquilo que penso.

A métrica? Que se lixe a métrica!
Se escrevo é porque me apetece,
e não porque me mandam escrever.

Ai de mim chegar o dia em que não me deixarem escrever!
Nesse dia já cá não quero estar há muito tempo.

Mas quem vos disse que eu era um autor?

Rodrigo Antão [29 09 2009]

2 - Loucura

Encontro-me a sós com a demência.
"Eu pagarei o próximo copo".

O tinto reflecte a ausência do corpo
e a viagem da alma começa.

Localizo a sua mão,
e pego-lhe de uma vez só.

"Ou pagarás tu? desta vez"
Beberemos de forma igual.

"Estás louca", dir-lhe-ei,
e verei no espelho o vinho.

Cortarei o lábio com os cacos do vidro,
reentro na concha corporal.

João M.Sousa "Porque Do Álcool" [II - Loucura]
fevereiro 2010