segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

dias

Amanhã as horas serão estrelas. Os beijos sonharão à sombra do sol da meia-noite. O céu terá as chamas de todos os dias. Vermelhas as labaredas dos olhos. Azuis os corpos de mar. Os passos andarão de saltos altos e as marcas na areia casarão com a espuma.
Amar será mais uma palavra. As lágrimas serão por gerações. Amanhã os dias terão horas. As estrelas acenderão os beijos. O horizonte queimará a pele. Os arrepios mergulharão no mar morto e o sal cristalizará em gotas. Mediterrânea paisagem no vento. Os cabelos suados de paixão. Amanhã as estrelas serão dias. Adiadas as noites fugidias, a soma das marés e dos amores. Filhos nascidos de um só desejo. Impressões sem dígitos nem expressão. Amanhã. Será depois de agora. E as palavras terão outra batida e assim será o coração.
V

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

desenterrei-o. Nunca pensei que o fizesse... mas fiz.
Fugi do quartel perto das 22h e 30m e fui de lambreta até ao pedaço de mato onde o tinham enterrado.

tirei de dentro da terra... roubei-o do seu regresso à raiz humana... e fiz-lhe um funeral como deve ser.

ofereci diversas bebidas ao defundo, sujo de terra, limpei-lhe os beiços e deitei-o sobre um caixao improvisado, de pedras, musgo, troncos e folhas secas.

Da vontade extrema de fumar veio-me um rito fúnebro intenso... Puxei fogo ao caixao e juntei os cinco elementos da existência na queimada que o fez passar da terra para o ar.

Nunca pensei fazê-lo antes... mas fiz

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"soneto libertado" ou "fim do mundo, onde a terra começa"

cheguei ao pico do mundo
e dei com uma porta trancada
e não há quem saiba o que é uma chave por aqui
cheguei tarde ao pico do mundo

cheguei tarde e sinto o peso do atraso todos os dias
talvez aqui estivesse a chave se fosse mais cedo
e a luz da lua não me ofuscasse contra o chão
talvez se chegasse mais cedo

e há tanto que eu queria conhecer neste fim da terra
há tanta solidão dentro da saudade de voltar ao princípio da vida
é um impulso abraçador da morte que nos faz querer viver

e vejo o teu cabelo, os restos espalhados no chão
há quase uma forma desenhada de seu resto e fusão com a nova imagem de ti
tiro a fotografia cá dentro, dos cabelos faço chave, entro e fico-me no topo

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

pedra

a dor física perde
todo o sentido

os sentidos tornam-se frios
porque a dor a sério nao se deixa explicar

sinto-me a cair
e desço
escada fora
sem olhar para trás

tenho tanta coisa feia prestes a sair da minha boca
e o frio que eu sinto faz-me tremer a vontade

o mundo, subitamente, torna-se um peso que eu nao preciso de ter... que eu nao quero ter

mas estou aqui
e até agora estava quase bem aqui
e até agora, depois de abrir as defesas, estava quase muito bem aqui
e agora?

hoje nao tenho esperança
nem a desejo ter - desejo encontrar a droga que me páre o tempo... renunciar à vida por duas semanas e acordar com tudo resolvido ... distante como o mar, sozinho como o tempo

amanha
sempre um amanha

e eu nao estou preocupado com o amanha
sinto-me despido de mim - perdi a chave da minha prórpria arrogância de mim para mim -
incapaz de voltar a fechar as janelas
incapaz de acreditar no que quer que seja
derramo uma lágrima, derramo muitas
com a esperança de que o quarto se inunde, e eu fique tao longe da terra e dos homens da terra, para que eu seja só chuva e chova a um parapeito de outra janela

eu sempre soube que a utopia faz parte da minha forma de ser
eu sempre soube que ia acabar sem sonhos, mais tarde ao mais cedo
e por muito que me tente acercar de uma soluçao, perco forças porque
acho que nas as tenho

sinto que vou voltar em breve
mas estou aqui

e se nao há tempo para ter esperança
resta-me só a desilusao.
tenho saudades da nossa casa tenho tantas saudades tuas
e só agora te sinto longe... só hoje sinto-te a escapar pelos os meus dedos
e já nao sei se posso, se consigo, agarra-me outra vez
eu sempre soube que o sonho conta mais que a enormidade rídicula que tem a vida
eu sempre soube que o pessimismo é a minha melhor "arma"
e agora, que é que tenho?


acabo de acordar e sair de casa
está frio, continua a fazer frio quando nao estás

bom dia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sol, castelo, paisagem e isto

Se a paisagem me ajudar vai sair algo de jeito. Se não ajudar paciência.
Hoje escrevo porque acordei com uma mensagem tão simples como tantas outras, mas tão importante e profunda como a distância que ela percorreu. Trouxe recordações, porque há muitas recordações, muitos momentos, muita estupidez, muito mau feitio, muita paciência, muita falta dela também e muitas histórias.
Já não há pizzas vegetarianas nem "lhas", e também já não há Trilho ou Talan. Também já não há muitas pessoas, e até havia. E, sabes, até dessas eu tenho algo parecido com saudades, tenho-o daquele e do outro, da outra e daquela. Sei lá... andavam sempre por lá... eram importantes... Aquele que só me fala de quando em vez ontem vi-o e, nem o sorriso sacana lhe disfarçou o ar envergonhado quando disse: - "Boa noite". Parvo. E o outro também ontem "falou" comigo. Lembrou-se de me convidar para o jantar dele, e trocou comigo 4 mensagens, uma por cada mês em que não me disse nada. Parvo.
Sabes, aqui está tudo diferente, mas eu sinto-me tão na mesma! Saudades? Nostalgia? Vontade de mais? Sim, isso tudo e mais um par de mamas!

Tenho saudades tuas, cabrão!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

el poema despierta



















"concierto-poesía
made in Portugal

O Poema (A)Corda"

Sexta feira 21, pelas 22h (portuguesas, aproximadamente),
@ "La Machacona café-teatro" @ Cáceres

"la sensibilidad suavizada en la ausencia conságranos en este inmovible tormento..."


João Sousa
Nuno Viegas

domingo, 16 de janeiro de 2011

a noite...outra...noite

A noite é o exílio da alma.
Perdem-se horas e a respiração é ao ritmo das estrelas.
Brisa azul escura, universo iluminado do outro lado do tempo.
Olho para lá da estrada de pó, projecto luz, o mar ruge e bate palmas.
A noite é o exílio da estória.
Perde-se o corpo e dançam os pés sem ritmo, sem cadência.
Brisa a clarear no fogo bailarino aos saltos no horizonte.
Olho para lá de mim, universo de vidas na busca eterna de ser.
A noite sou eu até amanhecer.
Cáceres. 9 de Janeiro
V

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

só?

acendo a luz vermelha
o cinzeiro está, vazio, no mesmo sitio

há o teu cheiro
há uma garrafa de plástico com a mesma água que tinha antes

deito-me, bebido, e sinto-te cá

vou desligar o candeeiro, a tomada incomoda-me as costas

boa noite

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

adorei ficar com o teu cheiro cravado na roupa, nos lençóis, nas paredes... um retorno real - dizem-me as paredes... eu respondo que as paredes são loucas e elas olham para mim como se o louco fosse eu, e eu enbrulho-me nos lençóis e eles querem levar-me a voar, e eu já nem nas molas os vejo retidos... visto as calças do teu pijama como se me vestisse de ti e elas aquecem-me demais e eu fico nesse calor tórrido enquanto adormeço com sonhos maiores...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

esta noite...aquela noite..outra qualquer noite

Esta noite.Esta noite as estrelas são de água.O céu brilha cristais e a luz adormeceu. Balanço o frio por entre os ramos das laranjeiras.Quisera eu que fosse Verão, mas este é o Inverno dos meus dias. Gelam os ritmos e o espaço neva na via láctea do meu brilho.Esta noite.Esta noite as palavras são de sangue.A vida escreve teimosamente no meu peito.Escorrego o olhar e deito o sono na cama desfeita do meu corpo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

mais mar, mais tempo

...um dia
voltará tudo ao que poderia ser


e o espaço vai fundir-se de vez com o tempo
os ponteiros do relógio passarão a estar coordenados para sempre


...um dia
voltarás de noite, para aquecer o vento frio
para secar a chuva dos meus olhos com a chuva dos teus


Quero tudo
no meio do nada
espero, firme, mas espero
e é a espera que me arrelia a pele
e é a espera que me faz Fogo e Ar
Terra e Tempo, Mar e Sal
...um dia
quando já não houver mais lágrimas
também não haverá mais Mar
...um dia
o Sol indicará o caminho mais fácil
mas nem por isso deixará de ser árduo
O Tempo continuará esbatido no meu olhar
preso, sempre preso, ao horizonte, às tuas cores
e uma cegonha, branca, levará consigo o nevoeiro
e eu vou tocar, como nunca toquei antes,
e os caminhos verdes do meu olhar, dilatados no tempo, abrirão a porta que espera pela tua entrada
...sempre um dia
...sempre um dia
ai, como se acabam as palavras
e aperto-te porque me apertas o peito

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

tempo, Tempo, TEMPO, T E M P O / M A R , MAR, Mar, mar

e entre as nuvens e os pássaros só restavam dois milímetros de distância.
Por muito que se quisesse apartá-los...
piam de um lado, chovem do outro
não há quem consiga ficar imune à doença do desencontro
...não deixavam afastar-se [...]


"Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água(...)"

(Nuno Judíce, in "Pedro, Lembrando Inês".)


[...] chocavam contra a tempestade, contra a chuva.
(chove quando não estás ... O Sol tem medo da tua ausência)
São prenúncios de que é impossível desligar esta ficha. Nem milímetros, nem metros, nem quilómetros. Não há coisa idêntica. Os pássaros continuarão a piar, as nuvens a evitar a chuva para ver de perto o Sol. E as coisas vão continuar, de uma forma de outra.


"Disponho à minha volta todas as razões de uma verdade(...).
Disponho à minha volta todo o escárnio do mundo. E não preciso de ver a tua
fotografia que custou caro aos meus deveres económicos. Mas o nosso encontro é
no eterno e aí não há economia"

(Vergílio Ferreiro, in "Até ao Fim")



E depois a bicicleta parou
o pneu parecia vazio e o Sol tardava em pôr-se.
O mar derrubou as sua próprias ondas contra as suas próprias rochas.
Voltou-se a ver, ao longe, um rodar lento dos ponteiros do relógio.
Tardou. Chegou lá, mas tardou.

Os ponteiros foram concertados. Uma vez colocados no seu sítio a
bicicleta voltou a andar. Correu. Tardou, mas chegou a tempo.
O mar sorriu, como um puto sacana que prepara alguma partida,
reflectindo o Sol sobre a estrada.
Voltou-se a ver, ao longe, o viajante nómada, contra as nossas próprias regras,
chegando a casa. Tardou. Mas Chegou. E não tardará em sair outra vez.


"That taste. All I ever needed. All I ever wanted. Too dumb to
surrender."

(Kings of Leon in, "Arizona")

E as vertigens vão ficando cada vez maiores

Os sinais de trânsito não correspondem ao caminho marcado no visor
...
e não tenho tempo.
esqueci-me dele noutra estrofe. esqueci-me de acertar os versos com o horário de espanha.
esqueci-me de olhar para o lado antes de um carro passar primeiro que eu. esqueci-me de me levantar a horas e correr antes que o tempo acabe.
...
Os sinais não correspondem
...
As frases não se encontram facilmente,
as ideias voam entre os espaços em branco

Não fora a tipologia e escreveria sonetos
Escreveria mecanicamente, tal como agora, mas pior,

Não fora o computador e nunca daria tantos eros orrtográficos
não fora o corrector gramatical e sairiam muitos mais

Cala-te, por favor, que tento ouvir aquela voz,
só mais uma vez, para ver se chego antes dela,
para a ver chegar.
...
piam do ninho para o céu, pedem à chuva que pare,
apenas por dois minutos, pelo menos até saltarem para outro ninho.
e a chuva parou. e as estrelas confirmaram a passagem para o dia
e Sol voltou a abrir brechas na janela - e a porta ficou aberta para sempre

...


"Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar."
(...)


(Camilo Pessanha, "Canção de Partida")


"Tu és Forças, Arte, Amor, por excelência! -
E, contudo, ouve-o aqui, em confidência;
- A Música é mais triste inda que o Mar!." (...)


(Gomes Leal, in "Claridades do Sul")


"Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcio
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro / morto e nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar"

(Mário Cesariny, "radiograma")

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

carne

a carne rompe-se
os pedaços rastejam até à berma da estrada
sem se identificarem os restos chutam-se de um lado ao outro
e facilmente se parte para um novo dia
a carne rompe-se