quinta-feira, 25 de abril de 2013

poema de comboio #14

[um feliz dia dos (es)cravos]


completo a folha com a vida



se está grávida, não fume
os dias têm já neblina de mais
vou ser optimista agora
demasiado. foi demasiado
toca a música assim,
baixa o volume do baixo
quando voas tens a sensação de liberdade?
não te preocupes. já passa
eu nunca aprendi a andar de bicicleta
a amália nunca me preencheu a alma
a mesa nunca me esteve vazia
não completamente
eco pistas usadas por centenas por dia
o campo é a saída para os inadaptados? fecha o jornal
e escuta a telefonia
a cacofonia
a esquizofonia
a telefobia
a cocafobia
a telefonia sem pilhas
a telefonia


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Janelas-corpo ou a mentira


Janelas ardendo nas testas perfumadas
orquídeas e outras visões de mulheres
seios frios chamando luas
portais vertendo desejos
nas paredes que são rosas para os amantes,
copos rolando rua abaixo
procurando lábios ou seios ponteagudos,
As portas são folhas que são portas
onde mulheres envelhecidas
retocam maquilhagens para o adeus,
As fotografias são a realidade mentida
os candeeiros estão apagados
e não há lábios para beijar o fumo rápido
da noite,
não há seios erectos para abrir as portas
os frios perfumes das portas
que são as amantes da rua,
frias as folhas que são mulheres
penduradas nas paredes
desenhando, invertidas, as paixões,
Nos teus seios, vejo ardendo os lábios
e os copos, que são portais para a lua
Na calçada cai a janela ardida
ardido o torneado corpo da mulher.
 
Esqueço porque recordo
Recordo, porque existes na mentira de ti...


(25/01/2013)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

a mesma música (C F G)

Vou usar os acordes mais simples
para dizer outra vez as mesmas coisas
Vou repetir as mesmas palavras
Porque por si só não dizem tudo

E porque ditas no teus olhos tornam-se lágrimas
E porque choradas p'los teus olhos formas as águas
Águas que correm junto à luz do Sol
dos mesmos olhos que apagam a lua.

________________________________
tempos de cantoria e música em Cáceres
momentos de clausura, saudade e composição
abraços a esse tempo e gente que cá está comigo agora e sempre

quarta-feira, 10 de abril de 2013

estas é que são o egipto

comem nas palmas da mão.
o passe social não é valido a partir de abril.
o trânsito permanece interdito

crianças educam crianças
e a contradição da regra é não poder andar

a evolução será não ler frases em vermelho
amiúde, os miúdos serão novos mapas astrais
do fututo. a couve voltará à terra.
gradeamento, grades brancas, apontamentos de um swing.
falta o ano?

Desvio ao acesso localizado.
De súbito, a contra-natura na vida
que nos emprestam os deuses
(esses filhos de uma grande deusa)
são nuvens que pedem um
copo de tinto
as nuvens pediram
para fumar um charro de erva

o índice pluviométrico mestrado pelas horas de pontal
prevê sangue caindo do céu. Celebremos a indisciplina
arranquemos dentes e falemos da vida dos raquíticos
dos mal-operados.

E porque não uma entrada de emergência?
Serás temivelmente o agora. o momento exacto, a
turbulência, buracos no alcatrão.
Experimenta fotografar a fábrica de perfil
e pede-lhe que sorria. A verdura está fora,
não aparece para o enquadramento da meia noite.
Já nem a água tem direito à opinião pública?

Somos meros pássaros. dentirrostros assustados
c/o folhear das horas de ponta.
Aponta... não esqueças de apontar os minutos também
chega cedo o sol e tarde para o exame.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Porta, a porta.


Tens uma porta?
Aquele fim que do outro lado é um começo, e o dentro e fora são apenas dois lados do mesmo objecto, que os separa?
Tens aquele som estridente de campainha, ou o do cuco, ou até do melro...?
Tens o chiar da porta? A tua porta chia?
Não tens uma porta?
Não tens um paradoxo que te separa da vida, da vida das outras pessoas, e que dele precisas para que a vida, a tua vida seja vida junto dessas pessoas?
É uma questão de atravessares. Estás ver?
As portas, assim como as passadeiras, sejam as vermelhas ou as outras listadas, com menos charme, atravessam-se.
Tens que ter uma! Onde for que queiras ir, tens que passar por uma, e se não fores também terás que passar por ou outra, e pode ser por isso que não vais, ou não queres ir.
Tens uma porta? Não te importa?!
Não tens o algo que tu não abres quando sabes que não é o carteiro, e muito menos abres quando é o contador da luz?
Como deixas passar a visita que esperas há muito, e a outra completamente inesperada que te trouxe uma prenda, mas que não cabe na porta?
Sinto muito.
O que fechas tu quando não queres deixar fugir aquela luz que é só tua, e o som dos teus versos inacabados, e o fumo do cigarro que não fumas, mas tens por companhia?
Queres uma porta?

sábado, 30 de março de 2013

A febre

A mão agrafada à rocha
de seda finíssima,
exasperando a sintaxe tépida de um beijo
uma lentidão grave
sobre o coração das folhas
encharcadas pela memória de si
enfeitiçando a longitude da promessa.
O cavalo selvagem, centopeia
deslizando pelo braço
estatiza-se perante as linhas
marcadas a roxo nos olhos.
Não passarás a pensamento
sem jurares que amas o álcool
e a feroz idade do tempo.
Respirarás os mansos territórios
e a lama das noites,
perfurarás os pequenos corações
das pequenas coisas a traço de pincel
a contra-cor, friamente.
Da queimadura, serás a febre
o suor das pedras, o granito nos dentes quebrado.
Acima e abaixo gigantizam-se as mãos
segurando a crina e a flor
no gelo das flechas e dos Astros.
Acima e abaixo o membro rubro
sonha o palácio e a estepe, e uma outra mão.
Não passarás sem o sangue
da promessa, o cálice e os lábios.
Não passarás sem a dolorosa exactidão dos ferros.
Para sempre, cravadas as lentas carnes
ao vento, ao assobio, às latejantes folhas,
O beijo será sempre dito,
os lábios sempre agrafados à febre,
mas nunca passarás a tempo...
Nunca a geometria dos corpos
será o idioma das árvores, vivas e atentas.
Relincha a madeira, exasperante.
a luz primeira sobre os pinheiros
empurra a besta para diante
pisando os frutos e o sal,
o granito mastigado
cai sobre o mel e as especiarias da tentação,
o sangue não cai ainda
e a rocha desliza a seda
sobre o braço artesanal e forte...
Não passarás sem o prumo
das portas recordadas...
Não passarás enquanto fores carne queimando...

sexta-feira, 29 de março de 2013

parte de nós (equidade)

por esta altura seríamos artesãos
estaríamos guardados para outros fins
que apenas aos melros cabem
mas cabíamos perfeitamente na
imensidão das horas
ora pensávamos que seria sempre
mas tínhamos uma ética do nunca
em comum, nunca a deixámos de parte

parte de nós ainda é artesão
mas parece que cada dia se estende
para ti, estendo estes versos
para este outro ti, estendo uma mão
irmão, estou aqui e sei que estás noutro lado

por esta altura teríamos altura suficiente
para saltar da montanha presos a um elástico
esticaríamos ao máximo a nossa arte
e esperávamos que a regularidade não se
tornasse quimera ou apenas a desculpa da preguiça

espreguiças-te
tinhas a ética do espreguiçar como ponto comum
uma arma de melros, pois parte de nós assume o trabalho que é dele
com um bico cheio de marcas, da guerra, da luta e da fome
opções, decisões, afastamentos lunares
reencontros solares

APOLO desliga essa porra!


espero ver-vos tão em breve
mas tão em breve
ou talvez só parte de nós

quarta-feira, 27 de março de 2013

Epidérmica Contracção

É talvez as vezes todas que não vejo o reflexo de mim. Todas elas sem excepção, sem linha de continuidade. Não há reconforto no esquecimento quando ele se sai como em piro-técnicas exalações de alma.

Olho para o lado em sopro introdutório,
e já espreita a matilha de versos...
Já caiu de mim faz todo o tempo (o meu pelo menos),
mas quando volta esquece-se a falta de tormento...

Esclerótica carícia que me embala,
onde nada é novo ou ruidoso,
é um incompleto eco vindo de uma caverna,
abrasador de gelos perpétuos.

Se não saio daqui hoje, eternizo-me...
Expando-me em contracções,
Mirro-me todo... que chatice.

poema de comboio #11


cá se vai… e tu foges e corres e saltas
mas não apanhei nada pelo caminho, andando
com a cabeça…
e eu fujo e corro e pulo entre as orelhas…
são duas da manhã e o candeeiro lá fora continua a confundir as galinhas do vizinho. Aqui não há mais nada que me faça crer que vivo, que faça querer a vida, que me faça lembrar quem és. só três da manhã – são horas de despertar as quatro e eu não sei porque estou na cama e não na varanda. Lembro-me. sei quem eu sou apenas parcamente falando

e tu saltas tu corres tu tu tu… cá se vai
é difícil estar a tempo andando com a cabeça
não não apanhei o comboio mas estou lá dentro enquanto miras
e eu fujo e corro e pulo murmuro entre as orelhas

ontem quando as palavras não se sabiam escrever e ainda esperávamos a primeira aula de terapia das falas, falavas como se nada fosse importante nada tinha real valor e era tudo tão cheio de significado sem o dicionário
ontem o hoje que ontem implicava haver num amanhã apenas despertado num sonho carregado entre nuvens de olhar e cinza. Como se nada fosse realmente cinzento e como se tudo estivesse pleno de cores só tuas.

domingo, 17 de março de 2013

lisonjeado
a calmaria
as novas cores
todas as formas e
todas as normas e
todas as mortas
frases e
calmaria
...

olhavas de súbito ruminando um local impossível de guardar
amarelos os olhos da pedra colhida num átrio reprimido pela foice

publicavas artigos como quem pastava a massa que o teu primo amassou
estava tudo visualizado... aplicados os efeitos à onda sonora onde dormias um pouco
partias os ossos nas ondas de um mar, mijado contra a parede, uma frase a negro
spray. cor de gato. cor de frase. cor de mar.

olhas de novo sem perceberes que a perna te tapa o passo
não adias nem recuas nem procuras o que o jornal de ontem não deixou passar

a calmaria
lisonjeado
todas as cores e
todas as lordes e
todas as formas
frases e
calmaria

...
localizavas a dor que nunca achaste no dedo do pé... gosto muito mais
da parte queimada, por cima, da nata, do pastel e do pastel de nata

Choque Epilético

Não, não...
Desculpem lá mas choque é que não!

Estava-se mesmo a ver!
Sempre se esteve mesmo a ver quando estava tudo turvo.
Portanto, estou de acordo com toda a mortandade menos com o choque.

Gosto pouco de hipocrisia à beira da campa.
Para quê? Os vermes geralmente comem mesmo sem pedir favor.
De qualquer maneira, se acelerar peçam lá com jeito.

Depois de acabarem com a choradeira vejam lá se sobra alguma lágrima a sério.
Porque ninguém chora como deve ser só por refluxo gástrico.
Quando se desperdiça tudo, há uma secura da emoção prolongada e defenestrante.

Aquela que é chorada em grandes quantidades de tempo,
vertendo sem ficar tudo molhado, um ácido interno de interregno sorumbático.
Qual queda sem interesse a não ser para quem interessa:
E quem interessa não sabe ou chora, só demora em se eclodir.

Pronto, fecha lá isso com jeito.
Eu não tenho uma morte contada numa capela qual voyeur de Sintra:
mas ao menos que fechem o caixão com jeito...
À cautela.

segunda-feira, 11 de março de 2013

o silêncio silencia a palavra
que com alguns dias deixados para trás se perdera
em dias e horas e perdas e ganhos
venho por este meio pedir-vos que a encontrem
assim que possam

aproveito para vos dizer, e pedir desculpa, que não tenho conseguido tratar do Suplemento do número 3 da nossa revista. Julgo que este mês será finalizado. Temos contribuição de Nuno Mangas Viegas, Marta Ferreira, Ana Pedrera, Marco Mangas, João Sousa... se alguém estiver omitido nesta lista faça o favor de me enviar um mail junto com uma pedrada.

Abraços muito grandes e saudades das nossas conversas...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

respostas

Não. E é por isso que mandamos na estrada que só nós pisamos.
Não. E é por isso que a diferença se faz a quem se quer diferente.
Sim. Entre aqueles cuja diferença os une e os faz criar, recriar, correr...
Sim. Por esses mesmos... apenas...
Não. As condutas servem para correr líquido... deixa-te disso
Naa... eles constroiem-se precisamente por não seguirmos conduta, por não desistir da luta, por passar por cima dos filhos da puta.
Sim. Para ti.
Nim.
Talvez.
Talvim.
Sim. As coisas pertencem a cada um de cada vez e só a si mesmo... e somos nós que mudamos.
Sim. Solução encontra-se na resposta anterior.
Talvin/ão. Ainda não sabemos... a questão deveria ser... Queremos mesmo saber isso?
(?)
SIM... Nessa sim acredito.

Parece que nem todos sabemos tudo... nem nada.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Existe mesmo um rumo?
Faz diferença a nossa forma de existir?
Importa o carácter?
Vale a pena lutar?
Valerá a pena planear uma conduta acertiva?
Construir ideais?
O que a pessoa é, conta?
É pessoal, ou aleatório?
As coisas são assim e pronto, ou são ladeadas de calçada?
Vão elas mudar?
Vamos mudá-las?
Vão elas mudarnos?
O caminho vai-se construindo, ou já está lacrado desde o começo?
Comtemplaremos um fim?
Ou o fim é simplesmente a ausência de um final?

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

poema de comboio #10

som. As palavras era feitas apenas de som
e sabíamos tudo o que era preciso para sobreviver(...)

poema de comboio #9

mas a volta
a volta que implica o movimento
o passo que implica a paragem
o esforço que implica a volta

mas a volta
o movimento que a volta implica
o passo que a volta complica
a vida que há numa volta

mas a vida
a vida que a volta compreende
a morte que a ela se estende
a volta que leva a vida

mas a morte
a vida que a ela se oferece
a volta que leva essa prece
o esforço que eleva a morte

poema de comboio #8

antes de mais gostava de te dizer
que nenhuma ortografia no mundo te pode ajudar nessa tarefa

não como fazer disto um anúncio
ou clamar a injustiça aos ventos que não entendem a tua fala

antes de menos gostava de não falar
não há nenhum som do mundo que o possa exprimir

não completamente
não sei faltar algo
não sei ser mais nada

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

poema de comboio #2


activei o sonho diário nas conchas que esperam o sol entre o fim do caminho de terra e o meio do centro de emprego da tua zona predilecta
abc calculado nas raias da nuvem sonhada – mais que um abc, um abcd de absolutamente nada – as regras do nada para o tudo onde poderemos dizer ‘ya’ sem que ninguém não olhe de lado
tantos lugares minha senhora e mesmo assim teria de ser ao meu lado onde os rabiscos escritos no banco não são azuis mas sim cor-de-nada
lá fora a paisagem cá dentro o murmúrio da máquina e das gentes caladas pelo ‘punk rock’ quase progressivo que me grita nos ouvidos
está activo o sonho e está no lugar da frente no lugar em frente ao meu no lugar defronte ao nosso e tu esperas pela próxima linha como quem chama sem som como quem soa a silêncio e silencia o comboio

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

poema de comboio #1


um olho no carro
uma porta de dentes
cerrados caminhos
sem lados diferentes
Tatuagem de pano
na boca fechada
sentado num cano
largura alcançada
Descanso no topo
um gel de esperança
na teia da aranha
sem formas na anca
um’âncora no peito
preso à nova poesia
pois fecho as portas
nas noites sem dia

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

lá fora
os olhos são cor de sol
porque a água tarda em cair
e quando cai
é já tarde
demais
lá fora