quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cooperativo

Porque é que não datas os poemas?
Porque é que os teus não têm título.
Ando a pé e de autocarro e de comboio.
Passei em todas as zonas apenas com um triciclo.
Com três rodas não chego a nenhum lado.
Talvez porque não saibas um deus.
Talvez porque não quero chegar a lado algum.

Quantos poemas tens?
Tens uma data deles, sem data?
Quantas rodas te chegam para não ires a lugar algum?!
Quantos sítios? Quantos sítios, quantos ciclos, quantos círculos, quantas voltas?
Quantos trilhos andados sem um Deus errante, quantas paragens de estação?
Quantos caminhos, de ferro, quantos metros de bilhetes, quantas horas de alcatrão?

Jõao Sousa e Hélder

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A síntese das coisas sintéticas

Escapa-se o objecto sobre uma distorção primeira
A energia original – substancialidade prima –
criou um eco que se escutou a si mesmo
caminho por si e em si caminhado
e para si criado numa condição imanente de esquecimento
Ressoa a constatação:
o encontro das paralelas dá-se no infinito
no infinito, nada sempre visto
convergem as coisas que se nos obrigam
a percorrer essas coisas mesmíssimas.
A dimensão de vitalidade,
halo que por excesso de sobreposição se nega a si mesmo,
constelação que de si para si se ausenta
torna-se-me equidistante, impossibilidade
em recusar a realidade da ilusão
A questão jamais será como fazer o corpo
mas, irremediavelmente, como ser o corpo
A síntese da imaginação – essa real virtualidade –
-tricot cognitivo auto contraditório –
põe-se agora em estado de coisa problematizada
num zero formal unificante e intensificador
da sua negação necessária.
E porque flutua sabe-se corpo
unidade sintética da apreensão
-num “como se” nunca “para se”
que desimpede e desobstrui o instrumento
para que este possa não ser como sempre esperou
Esta antinomia do efeito
- este não que é sim exactamente por sê-lo –
rasga o chão e abre fenda no céu
liberta, finalmente, a passagem para
o híper-orgânico que jamais o será
- excesso de não-si em si mesmo gera o que procura negar
desprendido de alegações verbalistas.



[Nesta torrente problematizadora
nesta guerra que as sensações se fadam em se relacionar e não ser a guerra
expansão predestinada porque inaudita
pouso ovóide a cabeça e adormeço.
Acordarei agora para o que me dizes…]


-Não dizes nada?
então, se me permites...



Constato possibilidades de discriminar viventes
Coisas que vivem, por assim dizer não dizendo
não disse vida, nem órgão nem ser
nada me o ditou
a coisa surgiu de tal forma, que tal forma se me escapou
Há algo de nuclear no êxtase sensorial
de captar existências por elas próprias
extintas de um todo,
desenforcadas de uma cadeia hierarquizada...
e há uma virtude soporífera
em escavar pelo umbigo de cada uma dessas coisas
que se pré-existem a si mesmas
expressões omissas do conceito determinado
Tudo luta por escapar à sua palpabilidade
tudo peleja por e contra o seu útero
por e contra o conceito que busca e de que se furta
compreender essa incompreensão
é meio caminho andado para voltar a reiniciar todo o processo novamente
Ao não estarmos predestinados a tais constatações
estamo-lo infinitamente mais do que se o estivéssemos
E tudo mergulha nesta intensificação da percepção,
da atenção-outra,
neste esquecer-me de mim, vector a vector,
para que ao acordar, possa cair a pique
de volta ao museu…



-É para estas merdas que dizes para vir ter contigo? Enfim.
Vá, hoje faço-te um desconto. Passa pa cá trinta paus?
-Mas percebeste ao menos o que te disse?
-Claro que percebi. Vá, trinta paus para cá... 
que a voz de Nerval também tem de comer.



(Évora, 4/12/2011)
nm-v


terça-feira, 21 de maio de 2013

poema de comboio #19


garagem
desvio para Tires, à direita
mais tarde… para o lado adverso
a avenida 1º Dezembro
mais pequena que uma artéria perpendicular
“até amanhã!”
que simpatia a do motorista

stop!
al berto, onde estás?
porque é que compramos as obras
se não cabem na mala?

464
estou perto de chegar a casa
até quando for casa
até quando houver estrada
passamos nas passadeiras
à mesma velocidade que tu
e tu não cabes na mala também…

agente de fidelidade…
algo me soa tão traiçoeiro
no teu letreiro branco
o viaduto
a garagem ao lado do viaduto
e da rotunda

pedra
esgotos
saídas de água
desvios para Tires
que engano o nosso?
este, aqui no lado adverso.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

...


Olhava de lado. Desconfiava sempre da luz amarela dos candeeiros que atormentavam o quarto por entre os buracos do estore. Os camiões carregavam em simultâneo o ruído e as mercadorias - símbolos da distância duma nova aurora. Os sonhos tornavam-se autoestradas, e vagueava entre as portagens da alma e os postos de serviço que a despertavam para a vida.
Não tinha carro e sabia bem como andar entre os comboios e os autocarros da vila. Sentava-se ou ficava de pé numa das carruagens do metro... e olhava como só as carruagens à frente se moviam. A sua estava parada mesmo com o metro em movimento.
Os pensamentos paravam entre as estações, e as recordações faziam um jogo sujo entre o passado e o desejo de um futuro. Os frutos da sua imaginação cresciam nas árvores asfixiadas pelos tubos de escape, pelos bêbados que as mijavam e circulavam no próprio vómito e barulho. As festas internas da sua convicção estavam fechadas a um número específico de emoções, só algumas tinham entrada-livre.

A porta do autocarro abria em cada paragem - as velhotas entravam e atrapalhavam-se, contado trocos e pedindo desculpa ao poste fixo no meio do autocarro, convencidas de que iam contra alguém. A poesia nascia entre os prédio cada dia mais altos - versos cada dia mais baixos, lágrimas cada dia mais soltas.

Os candeeiros apagaram e o Sol acendeu o resto da casa. Era dia, e a noite não queria mais adormecer. Com esforço, olhando para os bilhetes pré-pagos, bebia um café e fumava o primeiro de muitos cigarros. Impressionantes, as figuras do fumo espelhadas na alma.

JS, http://relatourbanoalgp.blogspot.pt/

terça-feira, 14 de maio de 2013

poema de comboio #15


um poeta inconformado e uma noiva descalça

o percurso dos autocarros tem variado
não só as obras o obrigam
como o trabalho o manda

perdi o sapato subindo os degraus
quando o sonho é assim, alto
a queda dói sempre mais

uma noiva inconformada e um poeta descalço

um entorse da alma é incrédulo
mas a realidade parece tão baixa
que só no alto dá para sonhar

as paragens, quase sempre as mesmas
dão tempo para ver o caminho
segundos de pura felicidade

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Parede


Agulhas investigando na carne
procurando o coração lilás dos corpos
coisas que têm nome
e são leves como penínsulas.
Desarrumam-se as aparições
nas molduras de ouro,
formas que se furtam ao dedo
e carregam o odor visceral do sonho.
Na parede grita o coração da parede...
Corpos com estátuas dentro,
esticando o braço ao horizonte
- o ébrio braço, o horizonte –
procurando os bandos de aves marinhas
que são povos derrotados em terra
leves, agora, como folhas, deslizam sobre o vinho.
Do vinho ficou o nome
e a caixa de madeira para guardar os ossos
quando já não servem para marcar os quadrantes.
O longo pescoço das flores, as fogueiras
a lâmina quente cortando a cara
pelas rugas.
Subestimaste os anos e as estações
deitaste na cama o rumor das bússolas
- os torneados corpos das bússolas –
Subestimaste o norte, o leme e a voz...

A carne rija das paredes
frias, como o nome das coisas que são frias
fala devagar misturando dialectos
explicando a evolução das cores
das mais quentes para as outras
e justificando a monstruosa textura da cara
quando pronta a morrer
A casa está vazia. Mas há uma voz.
Há um canto maior, um batimento
uma vibração cíclica
...talvez uma palavra repetida até ser água.
Procuro-te.
Escavo com agulhas a parede
até ao osso, até à estátua.
Procuro-te.
Procuro-te...
                                                                                                                                                                                        nm-v

sábado, 27 de abril de 2013

não-poema

matamos o Pai que se diz poeta e fodemos a Mãe que se diz poesia!: eis um poema edipiano!! a tua teta descia pela chaminé e eu chupava peles, nervos, sangue, gorduras... enchia-se a sala de carnes jorradas de cima e chupávamos todos o leite, a água, o vinho, o mijo, o suco... Habemos Petisco! Irrita-me a poesia, irrita-me a tua tia, irritam-me todas as palavras acabadas em –ia... Irrita-me o Pingo-doce!! Fode-te Pingo-doce! mais as tuas melodias... Desculpa Pingo-doce. Basta! Chega de poesia! Venha o Pingo-doce! Não é por mal querida, mas o teu capricho existencial fode-me o juízo. Tu sabes quanta carne tens que seduzir, esquartejar, amar, esventrar, foder, comer, tu sabes quanto de mim tens que matar para que te oiçam cantar em êxtases divinos... mas, Puta, eu não vim aqui para morrer!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

poema de comboio #14

[um feliz dia dos (es)cravos]


completo a folha com a vida



se está grávida, não fume
os dias têm já neblina de mais
vou ser optimista agora
demasiado. foi demasiado
toca a música assim,
baixa o volume do baixo
quando voas tens a sensação de liberdade?
não te preocupes. já passa
eu nunca aprendi a andar de bicicleta
a amália nunca me preencheu a alma
a mesa nunca me esteve vazia
não completamente
eco pistas usadas por centenas por dia
o campo é a saída para os inadaptados? fecha o jornal
e escuta a telefonia
a cacofonia
a esquizofonia
a telefobia
a cocafobia
a telefonia sem pilhas
a telefonia


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Janelas-corpo ou a mentira


Janelas ardendo nas testas perfumadas
orquídeas e outras visões de mulheres
seios frios chamando luas
portais vertendo desejos
nas paredes que são rosas para os amantes,
copos rolando rua abaixo
procurando lábios ou seios ponteagudos,
As portas são folhas que são portas
onde mulheres envelhecidas
retocam maquilhagens para o adeus,
As fotografias são a realidade mentida
os candeeiros estão apagados
e não há lábios para beijar o fumo rápido
da noite,
não há seios erectos para abrir as portas
os frios perfumes das portas
que são as amantes da rua,
frias as folhas que são mulheres
penduradas nas paredes
desenhando, invertidas, as paixões,
Nos teus seios, vejo ardendo os lábios
e os copos, que são portais para a lua
Na calçada cai a janela ardida
ardido o torneado corpo da mulher.
 
Esqueço porque recordo
Recordo, porque existes na mentira de ti...


(25/01/2013)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

a mesma música (C F G)

Vou usar os acordes mais simples
para dizer outra vez as mesmas coisas
Vou repetir as mesmas palavras
Porque por si só não dizem tudo

E porque ditas no teus olhos tornam-se lágrimas
E porque choradas p'los teus olhos formas as águas
Águas que correm junto à luz do Sol
dos mesmos olhos que apagam a lua.

________________________________
tempos de cantoria e música em Cáceres
momentos de clausura, saudade e composição
abraços a esse tempo e gente que cá está comigo agora e sempre

quarta-feira, 10 de abril de 2013

estas é que são o egipto

comem nas palmas da mão.
o passe social não é valido a partir de abril.
o trânsito permanece interdito

crianças educam crianças
e a contradição da regra é não poder andar

a evolução será não ler frases em vermelho
amiúde, os miúdos serão novos mapas astrais
do fututo. a couve voltará à terra.
gradeamento, grades brancas, apontamentos de um swing.
falta o ano?

Desvio ao acesso localizado.
De súbito, a contra-natura na vida
que nos emprestam os deuses
(esses filhos de uma grande deusa)
são nuvens que pedem um
copo de tinto
as nuvens pediram
para fumar um charro de erva

o índice pluviométrico mestrado pelas horas de pontal
prevê sangue caindo do céu. Celebremos a indisciplina
arranquemos dentes e falemos da vida dos raquíticos
dos mal-operados.

E porque não uma entrada de emergência?
Serás temivelmente o agora. o momento exacto, a
turbulência, buracos no alcatrão.
Experimenta fotografar a fábrica de perfil
e pede-lhe que sorria. A verdura está fora,
não aparece para o enquadramento da meia noite.
Já nem a água tem direito à opinião pública?

Somos meros pássaros. dentirrostros assustados
c/o folhear das horas de ponta.
Aponta... não esqueças de apontar os minutos também
chega cedo o sol e tarde para o exame.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Porta, a porta.


Tens uma porta?
Aquele fim que do outro lado é um começo, e o dentro e fora são apenas dois lados do mesmo objecto, que os separa?
Tens aquele som estridente de campainha, ou o do cuco, ou até do melro...?
Tens o chiar da porta? A tua porta chia?
Não tens uma porta?
Não tens um paradoxo que te separa da vida, da vida das outras pessoas, e que dele precisas para que a vida, a tua vida seja vida junto dessas pessoas?
É uma questão de atravessares. Estás ver?
As portas, assim como as passadeiras, sejam as vermelhas ou as outras listadas, com menos charme, atravessam-se.
Tens que ter uma! Onde for que queiras ir, tens que passar por uma, e se não fores também terás que passar por ou outra, e pode ser por isso que não vais, ou não queres ir.
Tens uma porta? Não te importa?!
Não tens o algo que tu não abres quando sabes que não é o carteiro, e muito menos abres quando é o contador da luz?
Como deixas passar a visita que esperas há muito, e a outra completamente inesperada que te trouxe uma prenda, mas que não cabe na porta?
Sinto muito.
O que fechas tu quando não queres deixar fugir aquela luz que é só tua, e o som dos teus versos inacabados, e o fumo do cigarro que não fumas, mas tens por companhia?
Queres uma porta?

sábado, 30 de março de 2013

A febre

A mão agrafada à rocha
de seda finíssima,
exasperando a sintaxe tépida de um beijo
uma lentidão grave
sobre o coração das folhas
encharcadas pela memória de si
enfeitiçando a longitude da promessa.
O cavalo selvagem, centopeia
deslizando pelo braço
estatiza-se perante as linhas
marcadas a roxo nos olhos.
Não passarás a pensamento
sem jurares que amas o álcool
e a feroz idade do tempo.
Respirarás os mansos territórios
e a lama das noites,
perfurarás os pequenos corações
das pequenas coisas a traço de pincel
a contra-cor, friamente.
Da queimadura, serás a febre
o suor das pedras, o granito nos dentes quebrado.
Acima e abaixo gigantizam-se as mãos
segurando a crina e a flor
no gelo das flechas e dos Astros.
Acima e abaixo o membro rubro
sonha o palácio e a estepe, e uma outra mão.
Não passarás sem o sangue
da promessa, o cálice e os lábios.
Não passarás sem a dolorosa exactidão dos ferros.
Para sempre, cravadas as lentas carnes
ao vento, ao assobio, às latejantes folhas,
O beijo será sempre dito,
os lábios sempre agrafados à febre,
mas nunca passarás a tempo...
Nunca a geometria dos corpos
será o idioma das árvores, vivas e atentas.
Relincha a madeira, exasperante.
a luz primeira sobre os pinheiros
empurra a besta para diante
pisando os frutos e o sal,
o granito mastigado
cai sobre o mel e as especiarias da tentação,
o sangue não cai ainda
e a rocha desliza a seda
sobre o braço artesanal e forte...
Não passarás sem o prumo
das portas recordadas...
Não passarás enquanto fores carne queimando...

sexta-feira, 29 de março de 2013

parte de nós (equidade)

por esta altura seríamos artesãos
estaríamos guardados para outros fins
que apenas aos melros cabem
mas cabíamos perfeitamente na
imensidão das horas
ora pensávamos que seria sempre
mas tínhamos uma ética do nunca
em comum, nunca a deixámos de parte

parte de nós ainda é artesão
mas parece que cada dia se estende
para ti, estendo estes versos
para este outro ti, estendo uma mão
irmão, estou aqui e sei que estás noutro lado

por esta altura teríamos altura suficiente
para saltar da montanha presos a um elástico
esticaríamos ao máximo a nossa arte
e esperávamos que a regularidade não se
tornasse quimera ou apenas a desculpa da preguiça

espreguiças-te
tinhas a ética do espreguiçar como ponto comum
uma arma de melros, pois parte de nós assume o trabalho que é dele
com um bico cheio de marcas, da guerra, da luta e da fome
opções, decisões, afastamentos lunares
reencontros solares

APOLO desliga essa porra!


espero ver-vos tão em breve
mas tão em breve
ou talvez só parte de nós

quarta-feira, 27 de março de 2013

Epidérmica Contracção

É talvez as vezes todas que não vejo o reflexo de mim. Todas elas sem excepção, sem linha de continuidade. Não há reconforto no esquecimento quando ele se sai como em piro-técnicas exalações de alma.

Olho para o lado em sopro introdutório,
e já espreita a matilha de versos...
Já caiu de mim faz todo o tempo (o meu pelo menos),
mas quando volta esquece-se a falta de tormento...

Esclerótica carícia que me embala,
onde nada é novo ou ruidoso,
é um incompleto eco vindo de uma caverna,
abrasador de gelos perpétuos.

Se não saio daqui hoje, eternizo-me...
Expando-me em contracções,
Mirro-me todo... que chatice.

poema de comboio #11


cá se vai… e tu foges e corres e saltas
mas não apanhei nada pelo caminho, andando
com a cabeça…
e eu fujo e corro e pulo entre as orelhas…
são duas da manhã e o candeeiro lá fora continua a confundir as galinhas do vizinho. Aqui não há mais nada que me faça crer que vivo, que faça querer a vida, que me faça lembrar quem és. só três da manhã – são horas de despertar as quatro e eu não sei porque estou na cama e não na varanda. Lembro-me. sei quem eu sou apenas parcamente falando

e tu saltas tu corres tu tu tu… cá se vai
é difícil estar a tempo andando com a cabeça
não não apanhei o comboio mas estou lá dentro enquanto miras
e eu fujo e corro e pulo murmuro entre as orelhas

ontem quando as palavras não se sabiam escrever e ainda esperávamos a primeira aula de terapia das falas, falavas como se nada fosse importante nada tinha real valor e era tudo tão cheio de significado sem o dicionário
ontem o hoje que ontem implicava haver num amanhã apenas despertado num sonho carregado entre nuvens de olhar e cinza. Como se nada fosse realmente cinzento e como se tudo estivesse pleno de cores só tuas.

domingo, 17 de março de 2013

lisonjeado
a calmaria
as novas cores
todas as formas e
todas as normas e
todas as mortas
frases e
calmaria
...

olhavas de súbito ruminando um local impossível de guardar
amarelos os olhos da pedra colhida num átrio reprimido pela foice

publicavas artigos como quem pastava a massa que o teu primo amassou
estava tudo visualizado... aplicados os efeitos à onda sonora onde dormias um pouco
partias os ossos nas ondas de um mar, mijado contra a parede, uma frase a negro
spray. cor de gato. cor de frase. cor de mar.

olhas de novo sem perceberes que a perna te tapa o passo
não adias nem recuas nem procuras o que o jornal de ontem não deixou passar

a calmaria
lisonjeado
todas as cores e
todas as lordes e
todas as formas
frases e
calmaria

...
localizavas a dor que nunca achaste no dedo do pé... gosto muito mais
da parte queimada, por cima, da nata, do pastel e do pastel de nata

Choque Epilético

Não, não...
Desculpem lá mas choque é que não!

Estava-se mesmo a ver!
Sempre se esteve mesmo a ver quando estava tudo turvo.
Portanto, estou de acordo com toda a mortandade menos com o choque.

Gosto pouco de hipocrisia à beira da campa.
Para quê? Os vermes geralmente comem mesmo sem pedir favor.
De qualquer maneira, se acelerar peçam lá com jeito.

Depois de acabarem com a choradeira vejam lá se sobra alguma lágrima a sério.
Porque ninguém chora como deve ser só por refluxo gástrico.
Quando se desperdiça tudo, há uma secura da emoção prolongada e defenestrante.

Aquela que é chorada em grandes quantidades de tempo,
vertendo sem ficar tudo molhado, um ácido interno de interregno sorumbático.
Qual queda sem interesse a não ser para quem interessa:
E quem interessa não sabe ou chora, só demora em se eclodir.

Pronto, fecha lá isso com jeito.
Eu não tenho uma morte contada numa capela qual voyeur de Sintra:
mas ao menos que fechem o caixão com jeito...
À cautela.

segunda-feira, 11 de março de 2013

o silêncio silencia a palavra
que com alguns dias deixados para trás se perdera
em dias e horas e perdas e ganhos
venho por este meio pedir-vos que a encontrem
assim que possam

aproveito para vos dizer, e pedir desculpa, que não tenho conseguido tratar do Suplemento do número 3 da nossa revista. Julgo que este mês será finalizado. Temos contribuição de Nuno Mangas Viegas, Marta Ferreira, Ana Pedrera, Marco Mangas, João Sousa... se alguém estiver omitido nesta lista faça o favor de me enviar um mail junto com uma pedrada.

Abraços muito grandes e saudades das nossas conversas...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

respostas

Não. E é por isso que mandamos na estrada que só nós pisamos.
Não. E é por isso que a diferença se faz a quem se quer diferente.
Sim. Entre aqueles cuja diferença os une e os faz criar, recriar, correr...
Sim. Por esses mesmos... apenas...
Não. As condutas servem para correr líquido... deixa-te disso
Naa... eles constroiem-se precisamente por não seguirmos conduta, por não desistir da luta, por passar por cima dos filhos da puta.
Sim. Para ti.
Nim.
Talvez.
Talvim.
Sim. As coisas pertencem a cada um de cada vez e só a si mesmo... e somos nós que mudamos.
Sim. Solução encontra-se na resposta anterior.
Talvin/ão. Ainda não sabemos... a questão deveria ser... Queremos mesmo saber isso?
(?)
SIM... Nessa sim acredito.

Parece que nem todos sabemos tudo... nem nada.