sábado, 13 de novembro de 2010

sopros (um)

Se a chuva fosse um código
indecifrável, sobre uma mesa
Em tons suaves soaria uma música
e o vento, conspirando contigo,
deixaria apenas felizes sopros
de uma porta aberta

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

soas-me a amanhecer lunar
e os ventos que me sopram sempre falam.

.sinto.
poderei tentar enganar-me, mas nunca o soube fazer

as pessoas têm um olhar igual, parece-me
e as serras continuam a ser a minha casa
e as castanhas continuam a picar-me os dedos

e eu existo

Janela

abro a janela nos olhos
retinas onde fixas estão as memórias dos risos
piscar de olhos, portadas ao vento batendo ritmos cardíacos
abro a menina dos olhos
e riu-me da expressão...facial da menina dos olhos
é a expressão das janelas quando estão escancaradas e deixam a chuva entrar.
abro as pestanas duas a duas
bem me quer...mal me quer...num inquérito à vida que passa
e as de cima tocam nas de baixo...as pestanas
e concluem que por vezes a vida bem nos quer...outras não
abro os olhos todos
e a chuva que está dentro dos olhos verte-se
os vidros dos olhos...salpicados...olham a rua
e num vai e vem eterno a vida desfila risonha ou triste...
só o verei se deixar o olhar à janela.

para o meu nómada João
V.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

tenho uma estranha dor no estômago
mas está tudo bem, no entanto...

nova vida, nova quebra, nova queda, nova subida
é tudo novo e assim será por mais tempo...

mando um abraço a todos vós já que me sinto sempre abraçado

beijo-te a ti, para já, fico quente e sossegado

terça-feira, 26 de outubro de 2010

boa noite

diz-me boa noite e se já não Acordar dormirei bem...
diz-me boa noite para que ela tenha a luxúria de um sonho que perdure pelo dia adentro.

diz-me boa noite quando for de outra matéria o meu ser,
diz-me de outra forma, num suspiro que vibre no peito que não tenho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

contrapõe-te
vira-te de frente para as costas da cadeira
parte-lhe duas pernas, encosta-a à parede
senta-te

enquanto isso, farei contas de cabeça
e vou tentar adivinhar por quanto tempo
te aguentarás de pé

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

entre as nebelinas anónimas do onírico
desesperei sem ouvir resposta.
porque nem sempre a certeza é a única verdade.

sábado, 16 de outubro de 2010

Vertigem e Espiral

«(...)perseguições pessoais? já não há ... esgotaram-se ... disso que se encarreguem os "piquenos". Persigam-se uns aos outros. Compliquem-se que "a gente" simplifica.»

«até lá podemos oferecer tantos produtos quantos forem necessários para reinar:
destruamos mercado local; criemos dívidas a nível abissal; enterremos velhos ódios e coloquemos em espiral todas as questões da vida individual; derrubemos barreiras económicas que a UE em breve nos receitará à vertigem "efeémeiesca"; calemos a boca a cada um pois só teremos uma boca para alimentar ... a de quem já a tem cheia...

facilmente conseguiremos aprofundar a espiral: "empurre com a barriga por favor"; "arraste mais um bocadinho para ao lado... ora aí está... era mesmo aí" ; "bolas de neve à vista".
mudemos os sinais das portas da segurança social... acho que há por aí numa dessas enormes lojas uns sinais muito mais interessantes (meninos, meninas, patinhos, wc, por aí...).

nem a língua nos pode parar... porque há de ser toda uma... a língua há de ser, finalmente, um valor para a troca, não identidade cultural... Que é isso? Pouca Vergonha! De que é que vos serve identidade se já não há perseguições individuais?»

TODOS NO CHÃO! «Acabou-se pá...
as perseguições agora serão feitas a todos de forma igual ... vós sois todos iguais e acabou-se a fantochada...»

«esforço colectivo...
...fim às reformas, fim aos benefícios...
para quê baixar salários aos senhores que nos dão toda esta oferta ocidental? para quê apanhar verdadeiras fugas ao fisco? o fisco está fora de moda...»

...

ai minha mãe...
...

en la plaza de mi pueblo
dijo el jornalero al amo
nuestros hijos nacerán
con el puño lebantao!
...
«calem-lhes a boca por favor, que ainda não acabei o discurso pá!»

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Declaração de IRS

Declaração de IRS


São tripas amor, são tripas...
Flores não são, são antes tripas amor...

Digestão.

Era a voz do povo um grito poético visceral, grasnidos de dor abafada pela luta.
Ás portas dos senhores da terra estendiam metros de tripas palpitantes,
reservando as extremidades, que se estreitavam numa proporção orgânica, para os presentearem mais tarde com belas gravatas. Gritavam alto sem palavras ou outros artificies: Com rejúbilo entrego meus intestinos grossos para que com eles possais fazer as meias de um natal; entrego-vos a pele gasta de trabalhar ao sol para que, dando-lhe um avesso preciso, possais estufar vossos bancos presidenciais; espero que não necessiteis de muito mais, mas acaso pela pátria ou por vossas excelências que me governais me sejam pedidos sacrifícios demais, eis-me aqui, sem outra vontade, com os meus pés, atenteis que já sem pele os laivos azuis e vermelhos também irão escurecer, mas têm calos pesados que darão um lindo pisa papeis; mas se não for do vosso agrado não vos preocupeis, com algum zelo vosso disponibilizarei ainda o meu outro, pois parece que, cerrado um pouco acima do tornozelo, sendo perfeitamente simétricos farão com certeza uma obra pós modernista se ainda encimados forem por uma seca flor vermelha, caso tenhais a bondade.

Absorção.

Senhores da terra –gritava o povo- vereis que maravilhas podeis ainda fazer com o meu dobrado esqueleto, na sala quinhentista, lado a lado com os javalis e os veados nem notarão a diferença seus ilustres convidados. Como me havíeis assim ajudado a desfrutar de vossas riquezas, numa quase mesma medida e nas restantes gerações diante de vossas mesas.

Secreção.

Ó colossal poderio! Senhores da terra mas não a dos meus pés, não enquanto for eu a pisá-la. Filhos da puta!

adormecidos

Será na pressão do tempo que está a causa da dormência?

Levanto-me, às 9 da manhã, ligo a máquina do café que a minha avó deixou armada,
bebo o café e como uma torrada,
visto as calças de ganga e, como que num ritual, acendo um cigarro na entrada da casa...

As nuvens já me disseram tudo por agora...
...só me resta ouvir-vos a vós.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

sem ar

Espaços do silêncio
preenchidos a negro,

exaltante esperança
perdida no vácuo.

Guardo perfumes, frascos, vazios,
dores enterradas na areia,
e parto num rumo quebrado
já tarde ... sem fuga.

Pérfidas lâmpadas
de uma noite triste,

amarelos sorrisos
sem maré, sem volta.

Regressos. Palavras vãs
inócuas, áfonas...

Já não sobram certezas
entre a solidão.

joao m sousa 16/agosto/2010
[uma das versoes deste mesmo poema...]

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Dois Pensamentos do Conde no Reino dos Perdigotos

Não sei porquê, mas deve de estar relacionado com ser eu a única pessoa a gostar de almôndegas com hortelã...
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O facto de eu não ter o hábito de contar o que faço com a minha namorada não tem a ver com querer esconder que tenho um lado muito sentimentalista. Apenas ninguém tem nada a ver com isso

Couves Frescas

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

chuva

C a i e m p e d r a s c o m o t e m p o r a l
a p a r t a m - s e n o ç õ e s d a t r a n q u i l i d a d e
e c o m o s n e r v o s p r o j e c t a d o s c o n t r a a l ó g i c a
p e r d e s - t e n a i r a
abraças o d e s c o n t r o l o
...

joao m sousa
9 do 10 de 2010
fico pasmado
ultimamente dizem-me coisas...
todas as coisas me dizem algo
todas as noites falam demais

fico sem mais palavras
quando as dizem todas por mim
quando me encontro nas palavras de outros
ultimamente, dizem-me tantas coisas...

tranquilo
finalmente um momento de espera
finalmente uns dias em paz
quando me dizem tantas e tão belas coisas

domingo, 10 de outubro de 2010

noite noite noite

noite
manto de luzes a subir a pulso o meu céu
e o breu do firmamento é nú e frio e voa ao vento
e eu em desalento procuro o amanhecer
queria que fosse já sol para ter raios de luz na escrita
circunscrita a prosa e a minha vontade de ser estrela
noite noite noite na sucessão dos dias
e tantas foram já que já não sei as horas
perdi-as no desiluminado céu que me entra pela janela dos olhos.
V
A noite fechava-se nos olhos do mar
e o mar cantava de boca aberta.
A noite escurecia
a testa do mar.
Adormeciam de costas as rochas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sátira Conjunta

Mijei na nossa senhora,
mirando a Via Láctea.
Avé Maria. Venha a nós o vosso reino.

Ai que rebento de me rir
gargalhadas de bexiga vazia.
Acho que isso está muito bem.

João Sousa & André Pires Calvário
30/09/2010 Nsa. Sra. Montemor-o-Novo

...

passei a noite sem esta sebenta,
sem espaços em branco para de negro preencher,
mas não foi saudade - foi só sentir falta,
não ter o sítio certo p'ra me descrever.
Mas há tantos espaços em alvo vazio
que esperam um dia para ser rasurados,
e só pela tarde, perto das 4,
é que dei por mim a escrever de novo.

João M.Sousa 07/10/2010 Castelo Branco

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sigo meio-vivo

Sigo meio-vivo,
balanço na desilusão.
Sinto o prurido,
vejo o meus olhos, irados
[traídos pelos sentidos]

São induzidos em erro
[e choram a histamina.
Combatem a substância da falha.]