quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

el poema despierta



















"concierto-poesía
made in Portugal

O Poema (A)Corda"

Sexta feira 21, pelas 22h (portuguesas, aproximadamente),
@ "La Machacona café-teatro" @ Cáceres

"la sensibilidad suavizada en la ausencia conságranos en este inmovible tormento..."


João Sousa
Nuno Viegas

domingo, 16 de janeiro de 2011

a noite...outra...noite

A noite é o exílio da alma.
Perdem-se horas e a respiração é ao ritmo das estrelas.
Brisa azul escura, universo iluminado do outro lado do tempo.
Olho para lá da estrada de pó, projecto luz, o mar ruge e bate palmas.
A noite é o exílio da estória.
Perde-se o corpo e dançam os pés sem ritmo, sem cadência.
Brisa a clarear no fogo bailarino aos saltos no horizonte.
Olho para lá de mim, universo de vidas na busca eterna de ser.
A noite sou eu até amanhecer.
Cáceres. 9 de Janeiro
V

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

só?

acendo a luz vermelha
o cinzeiro está, vazio, no mesmo sitio

há o teu cheiro
há uma garrafa de plástico com a mesma água que tinha antes

deito-me, bebido, e sinto-te cá

vou desligar o candeeiro, a tomada incomoda-me as costas

boa noite

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

adorei ficar com o teu cheiro cravado na roupa, nos lençóis, nas paredes... um retorno real - dizem-me as paredes... eu respondo que as paredes são loucas e elas olham para mim como se o louco fosse eu, e eu enbrulho-me nos lençóis e eles querem levar-me a voar, e eu já nem nas molas os vejo retidos... visto as calças do teu pijama como se me vestisse de ti e elas aquecem-me demais e eu fico nesse calor tórrido enquanto adormeço com sonhos maiores...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

esta noite...aquela noite..outra qualquer noite

Esta noite.Esta noite as estrelas são de água.O céu brilha cristais e a luz adormeceu. Balanço o frio por entre os ramos das laranjeiras.Quisera eu que fosse Verão, mas este é o Inverno dos meus dias. Gelam os ritmos e o espaço neva na via láctea do meu brilho.Esta noite.Esta noite as palavras são de sangue.A vida escreve teimosamente no meu peito.Escorrego o olhar e deito o sono na cama desfeita do meu corpo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

mais mar, mais tempo

...um dia
voltará tudo ao que poderia ser


e o espaço vai fundir-se de vez com o tempo
os ponteiros do relógio passarão a estar coordenados para sempre


...um dia
voltarás de noite, para aquecer o vento frio
para secar a chuva dos meus olhos com a chuva dos teus


Quero tudo
no meio do nada
espero, firme, mas espero
e é a espera que me arrelia a pele
e é a espera que me faz Fogo e Ar
Terra e Tempo, Mar e Sal
...um dia
quando já não houver mais lágrimas
também não haverá mais Mar
...um dia
o Sol indicará o caminho mais fácil
mas nem por isso deixará de ser árduo
O Tempo continuará esbatido no meu olhar
preso, sempre preso, ao horizonte, às tuas cores
e uma cegonha, branca, levará consigo o nevoeiro
e eu vou tocar, como nunca toquei antes,
e os caminhos verdes do meu olhar, dilatados no tempo, abrirão a porta que espera pela tua entrada
...sempre um dia
...sempre um dia
ai, como se acabam as palavras
e aperto-te porque me apertas o peito

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

tempo, Tempo, TEMPO, T E M P O / M A R , MAR, Mar, mar

e entre as nuvens e os pássaros só restavam dois milímetros de distância.
Por muito que se quisesse apartá-los...
piam de um lado, chovem do outro
não há quem consiga ficar imune à doença do desencontro
...não deixavam afastar-se [...]


"Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água(...)"

(Nuno Judíce, in "Pedro, Lembrando Inês".)


[...] chocavam contra a tempestade, contra a chuva.
(chove quando não estás ... O Sol tem medo da tua ausência)
São prenúncios de que é impossível desligar esta ficha. Nem milímetros, nem metros, nem quilómetros. Não há coisa idêntica. Os pássaros continuarão a piar, as nuvens a evitar a chuva para ver de perto o Sol. E as coisas vão continuar, de uma forma de outra.


"Disponho à minha volta todas as razões de uma verdade(...).
Disponho à minha volta todo o escárnio do mundo. E não preciso de ver a tua
fotografia que custou caro aos meus deveres económicos. Mas o nosso encontro é
no eterno e aí não há economia"

(Vergílio Ferreiro, in "Até ao Fim")



E depois a bicicleta parou
o pneu parecia vazio e o Sol tardava em pôr-se.
O mar derrubou as sua próprias ondas contra as suas próprias rochas.
Voltou-se a ver, ao longe, um rodar lento dos ponteiros do relógio.
Tardou. Chegou lá, mas tardou.

Os ponteiros foram concertados. Uma vez colocados no seu sítio a
bicicleta voltou a andar. Correu. Tardou, mas chegou a tempo.
O mar sorriu, como um puto sacana que prepara alguma partida,
reflectindo o Sol sobre a estrada.
Voltou-se a ver, ao longe, o viajante nómada, contra as nossas próprias regras,
chegando a casa. Tardou. Mas Chegou. E não tardará em sair outra vez.


"That taste. All I ever needed. All I ever wanted. Too dumb to
surrender."

(Kings of Leon in, "Arizona")

E as vertigens vão ficando cada vez maiores

Os sinais de trânsito não correspondem ao caminho marcado no visor
...
e não tenho tempo.
esqueci-me dele noutra estrofe. esqueci-me de acertar os versos com o horário de espanha.
esqueci-me de olhar para o lado antes de um carro passar primeiro que eu. esqueci-me de me levantar a horas e correr antes que o tempo acabe.
...
Os sinais não correspondem
...
As frases não se encontram facilmente,
as ideias voam entre os espaços em branco

Não fora a tipologia e escreveria sonetos
Escreveria mecanicamente, tal como agora, mas pior,

Não fora o computador e nunca daria tantos eros orrtográficos
não fora o corrector gramatical e sairiam muitos mais

Cala-te, por favor, que tento ouvir aquela voz,
só mais uma vez, para ver se chego antes dela,
para a ver chegar.
...
piam do ninho para o céu, pedem à chuva que pare,
apenas por dois minutos, pelo menos até saltarem para outro ninho.
e a chuva parou. e as estrelas confirmaram a passagem para o dia
e Sol voltou a abrir brechas na janela - e a porta ficou aberta para sempre

...


"Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar."
(...)


(Camilo Pessanha, "Canção de Partida")


"Tu és Forças, Arte, Amor, por excelência! -
E, contudo, ouve-o aqui, em confidência;
- A Música é mais triste inda que o Mar!." (...)


(Gomes Leal, in "Claridades do Sul")


"Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcio
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro / morto e nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar"

(Mário Cesariny, "radiograma")

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

carne

a carne rompe-se
os pedaços rastejam até à berma da estrada
sem se identificarem os restos chutam-se de um lado ao outro
e facilmente se parte para um novo dia
a carne rompe-se

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

anuncio

tablóide - VENDE-SE BANDA SONORA PARA SUICÍDIO - tablóide

rapaz jovem, 22 anos aproximadamente, oferece-se para criar bandas sonoras para quem se deseje suicidar, tipo filme

200€ a peça musical ... não peço mais porque sei que as famílias dos suicidas precisarão do resto para o funeral e para cobrir os danos psicológicos... de qualquer forma posso fazer desconto familiar para os que se desejem matar a seguir, caso não aguentem o desgosto (175€ para cada)

Se alguém não souber como se matar, poderei, por 500€, eventualmente, criar um vasto leque (e toda uma panóplia) de músicas para motivar a criatividade suicida.

O meu portefólio encontra-se online em www.mypsace.com/vermeproj ; exemplos de todas as hipóteses sugeridas neste anúncio.

Contacto
...


com o apoio de Catarina Silva & Nuno Borda de Água

escuro

pegou então no caderno. na caneta. num copo de agua.
esqueci-me das letras maiúsculas, e já não sei onde moro.
merda.
não tenho mais que um caderno por riscar, rasgar, dobrar
faltam-me as palavras
falta-me claridade

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

sol / chuva

já sem fôlego, sem paciência, farto de tentar dormir, acordou finalmente e cedo demais. pensou demais durante a noite, esperou muito por acordar da mesma forma que acordara antes, apenas se os dias se mantivessem iguais. não chorou quando viu que não era só mais um pesadelo - só porque tinha mais que fazer.
choveu... o sol deixou de aparecer no amanhecer do quarto... os lençóis deixaram de estar quentes na cama toda... o seu lado direito ficou frio, vazio, despido. o sol escondeu-se de propósito? não... a chuva só estava com pressa...

sábado, 18 de dezembro de 2010

entre rochas

sussurra-me o sossego dos pássaros
estalar breve, contínuo, das águas
vento fresco, brisa, badaladas por entre as rochas e o musgo
caminho, longe, um deserto verde
longe da minha lua e do espaço que nos envolve

viagem psicotrópica ao museo vostell, malpartida de cáceres

Fim de Cáceres
Rim de Pássaro
Passa-me o sal
"fecha um bocado a janela
sff"
e a curva é à direita
Passa-me a pimenta
Sinais, transitando vacas
Custa-me manter os olhos abertos
Conduz com uma mão

Sal, a mulher que era manca
Gostava de ter um pónei,
mas o carteiro só me trouxe um melro
Que Hotel tão piroso!

Oh Sol, vais em contramão
passa para este lado, então?
As vacas que bebem do charco
esqueceram-se dos óculos de sol
Um chuto para a veia de sabão azul e branco
Esfrega bem as costas que amanhã é dia de festa
Como é que róis as unhas dos pés?

Chapa y pintura
alumínio de alcatrão, prisão
prisão de vento

eu avisei-te que era melhor vestires as calças
2km antes deixaste uma das ovelhas nadar no charco
Ora! Parece-me que tens um coelho no bolso esquerdo
óvelha da ovelha
"Estamos no caminho certo?" perguntou a alface vidente
"Monumento Natural de los Barruecos" respondeu o cacto
"Estás com os olhos em bico" retorquiu a alface
Dizia para virar ali - "Estou com fome"

Gado permanente
não há tomate que aguente.

João Mendes de Sousa
Marta Ferreira
Nuno Mangas-Viegas

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

comboios

perdido no teu ventre-olhar
gritos de almas desiguais

.

viajou quilómetros
com um mocho às costas
poisou, finalmente, os pés de madeira
na terra

sentou-se no empalhado do assento
à beira de uma linha de comboio inactiva
há anos.

quedou-se
esperando a chegada de outros
de almas desiguais
que se sentem com ela

fico-me, retido, no teu olhar, no ventre do teu olhar

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A corda segurava a gravidade dos lençóis esvoaçantes que ainda sonham com a nossa presença. Abrem-se os lençóis como asas que preparam o voo, as molas coloridas apertam-se cada vez mais, o lençol queria subir aos céus pelas estradas dos ventos e desaparecer na ultima linha do horizonte mas, as molas, firmavam-no à terra num golpe de força cruel. Ainda aqui estás, sim. A corda traçava o ar, as molas apertavam. - Já não se pode voar? – perguntava o lençol franzido. - Goza lençol. – respondiam as mãos que o apertavam às molas. – Tu que enrolas em ti o voo mais perfeito, aquele que não carece de asas para voar, no ninho de nós dois. Ó pássaro que me invejas, guarda as tuas asas para ti, pois eu guardarei as minhas para mim enquanto o ar reter a tua essência. - Abre-se a janela, entram ventos da memória. Recupero o dia de ontem numa simbiose perfeita com o momento presente e, sem outras explicações, tudo renasce à medida da imaginação. O vento continua a soprar o desejo de voar para longe; as molas continuam a forçar, a prender o voo. O lençol não desistiu, foram os ventos que quedaram para lá do momento e do espaço e desapareceram, e voltam mas, voltam apenas em efémeras e fugazes presenças. O lençol, seco de lutar, dorme por fim, e com ele dois corpos sucumbidos pelo contágio do desejo de voar.

sábado, 27 de novembro de 2010

irei de olhos vendados quando morrer
para que me nao vejam os que por lá me esperam
...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

baptizado

sobre a sua face pálida, inundada de ares frios, pululava um fio de água oleosa - talvez com um breve fio de azeite a seu lado - que gentilmente lhe cedia cor ao rosto.

todos, pávidos, ficaram mirando tal acto da parte de seus co-habitantes. nunca ninguém estranhou tal coisa como hoje.

as suas vestes - antes negras - foram levemente tocadas pelos responsáveis por tal cerimónia e púrpuras se tornaram.

as chamas, sobre seus pés e pernas, mãos e braços, sem queimar cumpriram o papel de dar cor à pele que se escondia por baixo dos trapos vermelhos (já que a cara já a tinha de novo).

a pouco e pouco diminuia o grau de admiração. ao fim e ao cabo não é nem será a última vez que se baptiza um homem recém-morto numa alheia aldeia do imaginário humano.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

em pleno Desacordo... desatei as amarras, não as de todos os barcos do cais mas as do próprio mar; agora, agitado por uma inquietação imprecisa e perto, demasiado perto para não ser atingido pela sua vastidão carinhosamente avassaladora, sou então dominado nessa titânica agitação dos mares, nessa agitação enfurecida por nenhuma razão e por todas, é preciso imaginar a agitação sensível, sentir ao extremo as vagas enormes e impiodosamente escuras que impelem o corpo a um desmaio demorado e sonolento em efémeras viagens vertiginosas com movimentos ascendentes e descendentes, como que congelam o tempo,surgem novas vagas, enormes e extremamente claras quando rasgadas por vários trovões que estremecem por dentro das nuvens exaustas de água, cem tons de cinzento emergem e pintam os céus num esbatimento suave e ofuscante, quero descansar e não consigo, tenho de esbracejar para me manter à tona, quero, em trémulos, fugazes e verdadeiros momentos parar de esbracejar, mas algo desperta e o mar acalma, como que premiando o concorrente survivor, como que estendendo-me o manto mais esplêndido de acalmaria jamais estendido a alguém... agora descanso, não por pensar que o mar não mais se agitará mas, por saber que agora, a tormenta também me temerá!

sábado, 13 de novembro de 2010

sopros (um)

Se a chuva fosse um código
indecifrável, sobre uma mesa
Em tons suaves soaria uma música
e o vento, conspirando contigo,
deixaria apenas felizes sopros
de uma porta aberta