terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Luar amenus

Luar amenus

A poética refletia no macadame brilhante pela geada. Acho ótimo para enmarcar. O céu devia era estar enchido de estrelas, eu sabia, porém, não as conseguia ver: doiam apenas.

Enquanto eu olhava para o céu,e deslizava-me, ela olhava para mim. O que pensava, nem ela o sabe. Quero-a. Umas vezes mais do que outras, à noite às mais delas. Mas de cada vez eu vir a ser consciente do meu amor, este é maior. É o McGuffin de Hitchcock. Ela sabe mesmo quando acredita ser consciente de não saber. Eu sei ainda menos quando descobrir eu saber qualquer coisa: o Canto de Osanha traidor: vai, vai... vai, vai...

Linda como a mãe, inteligente como a mãe. A vida, o infinito, satisfazem-nos, no instante em que formos conscientes da insatisfação de morirmos: isso pode é acontecer de cada dia, de cada noite. É lindo assim, não é? Comunicação: isso que atingimos só no instante em que não identificamos a mensagem. Já sabemos o que não diz. Ahhh vai à merda meu caro. Tu queres não ser sendo, e isso é a única coisa que a vida, os sonhos, não dão opção de ser, nem mil anos que vivesses nem mil pessoas que fosses.

O Paulo, o tipo mais feliz que eu conheço, na altura com cinco anos, perguntou à mãe se ela iria morrer também um dia.

Meu deus, dá-me força, mesmo que não acredite em ti, nem nos teus acólitos, pelo facto de eu ser teu acólito também. Só me finanacie o tabaco, o moscatel e os durex avanti ultima. Primeiro de todo é querer. Quem não pode ser digno do nosso serviço? Logo a seguir... amor, bom, todos lembramos nos poros da face as nossas inquietações mais escondidas, para que demorar a confessão: caiamos todos na tentação: sejamos artistas, sejamos dignamente inúteis, comerciais, monoteístas e consumistas: e ééééé´!.

Eu também sei: Ulises nunca existiu; é sou muito provável: Circe soube logo. Dá-me a sombra, rápida, contraste, brilho, retórica antiga, jogo, vida. Dá-me a luz, só assim posso preencher de mim o sol, aquele que nem sequer eu só sei onde me vai cair em cima.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fogo-se!

bom dia
esqueci-me de apagar o cigarro
sei como te incomoda o fumo de um cigarro quase apagado
sei como te irrita o cheiro a cartão queimado
ou talvez seja o perigo do vidro derreter que te chateia

boa tarde
já me lembro como se conduz
sei como colocar a chave na ignição sem fazer força
sei como pôr a embraiagem para meter a primeira
ou talvez saiba melhor como fazer o ponto

boa noite
cheguei, de cigarro mal apagado e queimei-te os estofos
sei que é a última vez que poderei conduzir fumando
sei que é o último cigarro que não apago em condições
ou talvez seja só a primeira vez que uso um extintor!

Despertares...

Dos ovários da manhã
arranco a raíz a que me seguro
para que possas despertar
sem arames nesses membros...
- que invento para ocasiões de vício -.
A tensão baixa de cair na calçada
à porta do disfarce
-hesitação habitual de quem
de raiva-a-raiva, extinto -
demora-se por defeito
na ferrugem do prematuro movimento
- primeiro grito anterior ao susto -.
Indecido-me por insensatez dialética,
conflito que de extremos sabe a face,
que de respirar prova mares
- oblíquos, opacos, outros... -.
A invenção de novos dias
traz no bolso pequenos ossos...
desequilibrios que o real
se esqueceu de estudar.

Agora que acordaste, digo-te "bom dia!"
Se ao menos me pudesses ver...

noite noite noite em 10 de Outubro, hoje

10 De Outubro de 2010
E já era noite nos meus dias.
Tive de acender a luz na estrela da minha manhã
E o peito foi-se rio abaixo nas ondas de um mar longe
Rolei no escuro como granito arredondado e trôpego
E esbarrei na ausência da vontade de ser sorriso todas as noites.
Que sonho foi este que me assaltou a felicidade
Para fingir ser verdade e afinal ser só noite sem lua cheia?
V

.pt

Eram corpos e ventos. E havia luz.
A luz dos olhos que olham com um olhar cintilante.
Numa sala vazia de quase tudo menos incerteza, onde reinava a confusão.
Saltitavam horrores e prazeres e emoções que nunca foram tuas.
Com mãos de cordas de guitarra, aquela que toca sem nada alcançar,
fez um gesto melódico, um gesto que de pouco adiantou.
Não havia propagação ou retorno, nem reverberação ou resposta.
Pelo que soou, perturbou e desvaneceu.
Havia um cheiro, cheirava a terra molhada e a café.
Os pés descalços e as mãos frias, agitados por natureza, eram agora calmos e pacientes.
E assim ficaram até tudo terminar.
Agora continuam corpos e ventos. Mas há menos luz.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sem assunto

Haja alguém que tenha coragem e que me grite aos ouvidos aquilo que eu quero ouvir,
 "A morte, amiga, é algo que trazes no bolso há tempo demais!"
 e o meu bolso sem fundo, descosido
(e a linha a entrar na agulha)
e sem sequer saber se valeria a pena remendar.
(e a linha que não quer enfiar)
- Joana, traz-me a agulha que tenho aí...
(mas nisto tentava...)
e o aí que a Joana procurava, à toa
(entrou!)
e um 
- Deixa, já não é preciso
e a Joana a ver do aí, onde talvez pudesse encontrar mais do que uma agulha
(pano duro, este...)
já lhe tinha dito que não era preciso
- Eu sei, ouvi, mas o que queres...
(e o pano que não ajuda)
- Talvez vá precisar...
(e a agulha torta, sem jeito, sem forma, sem ser dura e recta a entrar)
o aí finalmente revelado
- Queres mesmo?
(nem agulha, nem linha, nem pano...)
- Aqui tens outras calças, talvez...
(já perdida no pano, com a agulha e muita linha)
- Não, tem de ser este o bolso.
e a Joana a ver o torto da agulha nos jeitos da sua  mãe
- A morte só conhece um bolso
(e é nele que procura andar)















terça-feira, 6 de dezembro de 2011

AEQUUM

O blog aequum tem crescido significativamente, por isso,
acho importante convidar mais pessoas interessadas em fazer crescer ainda mais.

A tod@s @s que foram convidad@s escrevam o que queriam, como queiram, em que norma linguística queiram!

Abraços e obrigado a tod@s pela colaboração com o blog colectivo AEQUUM

terça-feira, 22 de novembro de 2011

dia 29

precisas de mais razões para além da morte
para gritar o que é teu, é nosso, e não da sorte
?
o sangue escorre como a chuva rasga
e há quem não se molhe

porquê? não vou compactuar com tudo o que é só mais fome
e manipulação

as pedras que caiem da tua mão não têm outro rumo
e os olhos que têm só esta saída são teus e não choras
!
e o desespero encharca as ruas
e há quem não se molhe

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

manda-lhe saudades minhas

no resultado da imensa fuga de informação que se extrai do meu cérebro
existe sempre um amanhecer nostálgico. o meu corpo, leve como esferovite
pesado como água, não se levanta, e os olhos colam

ligo a música e as notas fogem d'encontro às memória
há um cigarro semiapagado no cinzeiro, que ela deixou lá, fugido e solto
e um igorte estranho para comer antes de fumar

há um fim amargo no meio de todas as coisas que, como chuva, evaporam d'encontro ao chão do nosso preste
o passado torna-se o fumo que exalei entre estas paredes,
que certamente manchou as outras, onde o fumo das torradas quase queimadas servia de sinal para o despertar dum dia mais

o calor infernal e o frio que o acalma estão uníssono na rememoração
e há uma dor parecida a todas as outras que não se cala,
e eu - que ainda tenho o ouvido doente desde então - ainda tento chegar às 23h da noite nesse mesmo sofá onde tudo começou

sigam fumos e procurem onde tornar matéria a imagem mental das pedras que pisámos

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Não há.

O problema é que não corro mais que os passos, e tudo se resume a isso.
nem o binário, ou os 156 cavalos-vapor aumentam o rendimento.
desamarro gritos e palpitações e espero despedir-me da gravidade, de uma e de outra. As gravidades.
Agarro bem o que quero levar, mas não parto.
E nunca parti, mas um dia voltarei.
Talvez antes do outono, para ver o laranja das folhas.
"tens que ir(...) diz ele, "eu concordo!" diz a outra.
E ainda há mais uma que também apoia.
Mas acontece a perfeita engrenagem da apatia com o sedentarismo, e uma série de situações.
Sei lá se é o fado! Ou uma fase, ou o blues, ou o hip-hop.
Mecanismos de um pedaço de fraqueza feito vida.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

...voar...

É quando o rio aparece nas nuvens que se arrastam na terra do sonho que acorda de dia enquanto a noite adormeceu com as realidades dos dias de ausência de sol, de luz, de silêncios tranquilos, de escuros claros, de vontade de ser, apenas... é quando somos feitos de matéria flutuante e dançamos com os pássaros sem nos questionarmos porque o fazemos. É quando não questionamos que o céu é âmbar porque ele é feito de olhos; é quando não questionamos que a lua só nasce hoje e agora porque um desejo se tornou estrela de fogo e não queremos saber se ardemos lentamente até ao fim... o momento fica para lá de si, prolonga-se numa brisa que nasce do corpo levitado e inverte-se o peso da terra que fica suspensa por uma flor prateada na mão de uma criança que a roubou de uma senhora que lha oferecera e corre mais, mais longe, toca a brisa as águas e os céus, o fogo e o barro, o ar enfeitiçado de perfumes mil, a pele... é âmbar o crepúsculo dos olhos que me espelham num lago de luz e o sorriso é nuvem de algodão de uma feira de crianças onde os sonhos se confundem com a realidade, e para eles eterniza-se o tempo na breve efemeridade, arrastando-se pela brisa da metamorfose do mundo, para lá, leves, voam... sem saberem porque se questionar, voam... sem saberem voar, voam... os dois corpos que dançam ao sabor do vento...

contemporâneo de agora

Pré-Requerimento

Costumava expressar-me, como então acreditava, poeticamente...
Agora exigem do meu discurso uma tal formalidade que já nem me encontro nele, ele é apenas o que eles querem ouvir e voilá: teatro!
Os advogados recusam toda a minha imaginação e exigem que fale como eles, mais valia um espelho estéreo... vou ali e já volto e nem notavam... para os chefes, imagens pálidas mas aspirantes a grandes césares... hahhahaha... retribuo honestamente com o meu ser mais político, ainda que nem sequer entendam a possibilidade de que não sou eu quem ali esteve. À tarde, eis-me divertido no Parque dos Requerimentos: com tal delicadeza que poderiam imaginar-me sem barba! É o que se esconde nas palavras que me fode! Quando nem sei bem os papéis que desejam para mim naquele momento em que, seguramente, alguém se divertiu a pensar no mesmo...

Requerimento

Era tarde, uma tarde longa e tardia,
A vaca dentro do coração fazia azia,
Trabalhávamos em sentido oposto,
Eu punha tu tiravas: o rosto ao meu encosto,
O boi da vaca baloiçava a embriaguez,
Torpe, arrastava-se às tetas, uma de cada vez... e outra vez...
O sol paria uma tia do tamanho de uma lua que era uma puta nua, um festim que era assim assim... não acabava, era madrugada e chegava uma noite apressada, mascarada de máscara, não a entendi, não a vi, a teta aluava e eu encostava o meu rosto... a utopia e a puta que a paria: seria preciso tal harmonia que a bezerrisse adormeceria o medo que não se quer perdido no fio dental da sensualidade que se vivia na pele de uma pele de galinha e que arrotava a azedo quando no balão subia agarrado à teta da utopia que persistia em sê-lo e ninguém estava acordado... estavam todos a mamar na teta, a foder, ninguém se apercebeu que somos todos a vaca, o boi e a utopia! Deveria ser magia, encantamento, estupefacção, deveria ser um cão, uma pia, um jumento... deveria ser só a correria e a dor que fica na vaca da teta chupada, não tenho mais leite para vocês! Comam a vaca picada e o boi! E já agora caguem nas putas das utopias que são mulheres nuas que vocês não podem olhar, arde-vos os olhos do pecado que é mão de ferro vermelho sobre as tripas que vos enojam e arrepia no vermelho dos olhos do boi que arfa em cima da vaca das tetas chupadas, utopias enterradas... celebração!

domingo, 30 de outubro de 2011

SoNo

Tenho os pés frios e não me apetece pensar.
Os olhos fecham-se e eu vejo melhor assim.
Escrevo e apago inúmeras vezes. As ideias fogem.
Fico eu e todo o meu ser complicadinho, de barba por fazer.
Fazer fazer, fazia um chá, mas não há essências. Paciência.
Paciência, transparência, sinusite, tenho os pés frios e vou dormir.

á

Há dias que sim, há dias que não.
Há dias que não porque sim!
Há dias que sim, porque não?!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

?(Europa)?

Tenho as canetas secas
de não lhes pôr as tampas

Tenho as gavetas pêrras
por nunca as manter abertas

Tenho os bolsos forrados
porque nunca os rasguei

Vou com os tostões contados
para pagar tudo ao rei.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

todos os dias são dias de aniversário...todos os dias renascemos....todos os dias as palavras são outras, novas, rebentos de ser...a nós que escrevemos aqui e no mundo...todos os dias de todos os dias...Parabéns!!!!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

(Kuster Aragem)

Huelo a lluvia en el limbo al que unos perros verdes con cabezas de delfín y humanidad de elefantes y alas de ángeles estampados contra el empedrado del jardín de granito me han llevado, yo qué coño sé por qué inescrutable privilegio.

El caso es que a mi me duelen los brazos que un dia memorable me crecieron para que pudiese abrazar esa tormenta primigenia de relámpagos y palabras. Os meus parabéns e agradecimentos pelas luzes e a amizade. Aequuns todos ¡Duro con ellos!

Seu choramingas varredor, mesmo fodidamente, caserenho.

PD: 150€ (!??!!!) da caução da praça darmas, e os recibos que descontam mais 150€ (!??!!!) em despesas de àgua, luz e gas foram-me prometidos para esta semana na imobiliária. Apanho-os, ou apanho melhor uma smith&weston? Só digam.

Abrações

[texto de KUSTER ARAGEM - em resposta ao aniversário do AEQUUM]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Sim, festejamos,

festejamos porque é feita de festas a nossa escrita. porque é feita de tormentos a nossa frase última, profeta da próxima e das seguintes. porque é feita de sentimentos turvos e água tépida o calor com que as letras se juntam e as portas se deixam entreabertas.

festejamos porque são dias de festa todos aqueles em que nos tocamos com uma rima, com uma ausência de toque, com uma cor sublinhada, com um negrito elevado ao mar... porque é a cerveja que trocamos que nos exila para uma qualquer estância da existência em singular pluralidade.

porque os filhos da puta serão sempre filhos da puta, mas os gritos serão sempre mais altos.

e porque a indiferença e apatia têm de ser quebradas de alguma forma, e porque temos de começar por algum lado... que o AEQUUM seja o barco de um grito, que a Equidade seja a ponte para a experiência, para a concretização, para o comando das nossas vidas sobre o planeta e os seus dirigentes que nos querem escravos

não somos escravos e por isso festejamos

Temos dois Nunos, Temos um André com seu Rodrigo Antão, em busca da perfeição da métrica e a imperfeição da certeza; Temos um Vicente - exilado de si, rebelde de outro, pai de tanta frase e tanta harmonia em desespero com a dor que acalma os versos da imperfeição; , dois joões/juans sempre à escuta e à coca de algo mais. Temos uma Vanda, progenitora das noites sem ausência, das solidões acompanhadas de ondas e mar e contas de cabeça. Temos um Topê escondido entre as brumas das palavras fragmentadas, irmão da alma, irmão da palavra, cúmplice na desordem. Temos outro Nuno, mais longe e mais perto, esperando a sua vez de gritar connosco. Um Hélder tímido que as pedras que vê rolar pelo chão, as pontapeia num desabafo do fundo da metáfora; Um Ricardo à espera de um mesmo grito. Um Daniel perdido no Norte e encontrado no Mundo.
é na equidade que os produtos finais deixam de o ser e passam a ser mais uma ponte para toda a criação aqui gerada...

Queria, então, fazer uma sugestão urgente a todos este Poetas Cientistas Da Escrita que o AEQUUM aporta... Não desistam... a letra é a fórmula certa para a criação do grito...e o grito é a certeza de que somos os mesmos, mas melhores

E um pedido: muitos de vós já experimentaram colaborar nos projectos mirambulantes do colectivo PEBL e de outros projectos sediados entre Montemor/Évora/Tavira/Mundo... Queria agora pedir a cada um de vocês que escreva um breve texto dedicado, para que este seja explorado musicalmente por um projecto que em breve sairá pela rua... Queria também pedir que fosse cada um de vós a acompanhar a transformação desse texto, e quem lhe desse vida, talvez, um dia, num palco pequeno perto de todos... dúvidas podem pô-las nos comentários... mas duvido que as tenham


obrigado a todos os que têm participado e continuam a participar... o AEQUUM cá estará criando pontes entre as almas, entre os mundos, entras as diferentes concepções da vida e da morte, da água e da terra, da mente e do corpo.

um abraço forte e apertado a tod@s


sábado, 1 de outubro de 2011

Festejamos?


   Combinámos encontrar-nos. Já não era sem tempo, afinal, há um ano que não nos conhecíamos. O local era amplo, civilizado, claro, mas expunha, orgulhoso, pequenos apontamentos naturais ao redor dos quais pontuavam exemplos da naturalidade com que o homem convive com a natureza: alguns papéis, copos plásticos e um ou outro vestígio do que fora uma refeição.
   Claro que não era o melhor dos espaços, mas a criatividade é fodida e quando aliada à obrigação dá-nos o seu pior. Já não há locais para os poetas desde que Valter Hugo Mãe disse que o Herberto Hélder devia estar numa praça para ser adorado. Agora é vê-las, as praças, atulhadas de invenções em honra do bombeiro, do marceneiro, do trolha e até do velho que, quando crianças, nos vendia as câmaras-de-ar com mais furos do que tinha a que lhe levávamos. Mas poetas, nada. Por isso, pensei, talvez não fosse fruto do acaso aquele local que combináramos ser o ponto que nos juntaria. A primeira vez.
   Carregaríamos ao peito um poema nosso. Sim, uma pequena honra ao célebre “ Põe-me um poema no peito para te ter sempre presente” do João Sousa, e através da leitura do poema colocaríamos à prova a nossa intimidade, e saberíamos então se realmente nos conhecemos pelas palavras.
   Quando cheguei já lá estavam dois. Sentei-me, pedi uma cerveja de pressão e não trocámos uma única palavra. Limitámo-nos a lermo-nos mutuamente. De vez em quando os nossos olhos encontravam-se e provavam, com um ligeiro brilho de ironia, que já nos descobríramos. A pouco e pouco foram chegando os outros. Olhavam em redor e talvez pensassem do local o mesmo do que eu, mas logo se sentavam e se abstraiam do envolvente. Nada havia sido combinado previamente, mas nenhum disse uma palavra a não ser as duas ou três que dirigíamos ao empregado pedindo-lhe mais uma bebida. Estivemos horas naquilo: lendo-nos mutuamente e regando o espírito.
   Quando a noite começava a levar de vencido o dia, um de nós levantou-se e juntos vimo-lo desaparecer para lá da sebe que delimitava o espaço. Depois outro, e outro, e outro, e o último a abalar foi um dos dois que já estavam aquando da minha chegada. Parecia um ritual, o cumprir com preceito regras rigorosas que tínhamos imposto a nós mesmos.
   Continuamos a cumprir o único ritual que fazemos questão de respeitar: escrever no AEQUUM. Nunca mais os tornei a ver. Não sei nada deles, apenas conheço as suas palavras; apenas os conheço pelo poema que carregam no peito.