sábado, 18 de dezembro de 2010

entre rochas

sussurra-me o sossego dos pássaros
estalar breve, contínuo, das águas
vento fresco, brisa, badaladas por entre as rochas e o musgo
caminho, longe, um deserto verde
longe da minha lua e do espaço que nos envolve

viagem psicotrópica ao museo vostell, malpartida de cáceres

Fim de Cáceres
Rim de Pássaro
Passa-me o sal
"fecha um bocado a janela
sff"
e a curva é à direita
Passa-me a pimenta
Sinais, transitando vacas
Custa-me manter os olhos abertos
Conduz com uma mão

Sal, a mulher que era manca
Gostava de ter um pónei,
mas o carteiro só me trouxe um melro
Que Hotel tão piroso!

Oh Sol, vais em contramão
passa para este lado, então?
As vacas que bebem do charco
esqueceram-se dos óculos de sol
Um chuto para a veia de sabão azul e branco
Esfrega bem as costas que amanhã é dia de festa
Como é que róis as unhas dos pés?

Chapa y pintura
alumínio de alcatrão, prisão
prisão de vento

eu avisei-te que era melhor vestires as calças
2km antes deixaste uma das ovelhas nadar no charco
Ora! Parece-me que tens um coelho no bolso esquerdo
óvelha da ovelha
"Estamos no caminho certo?" perguntou a alface vidente
"Monumento Natural de los Barruecos" respondeu o cacto
"Estás com os olhos em bico" retorquiu a alface
Dizia para virar ali - "Estou com fome"

Gado permanente
não há tomate que aguente.

João Mendes de Sousa
Marta Ferreira
Nuno Mangas-Viegas

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

comboios

perdido no teu ventre-olhar
gritos de almas desiguais

.

viajou quilómetros
com um mocho às costas
poisou, finalmente, os pés de madeira
na terra

sentou-se no empalhado do assento
à beira de uma linha de comboio inactiva
há anos.

quedou-se
esperando a chegada de outros
de almas desiguais
que se sentem com ela

fico-me, retido, no teu olhar, no ventre do teu olhar

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A corda segurava a gravidade dos lençóis esvoaçantes que ainda sonham com a nossa presença. Abrem-se os lençóis como asas que preparam o voo, as molas coloridas apertam-se cada vez mais, o lençol queria subir aos céus pelas estradas dos ventos e desaparecer na ultima linha do horizonte mas, as molas, firmavam-no à terra num golpe de força cruel. Ainda aqui estás, sim. A corda traçava o ar, as molas apertavam. - Já não se pode voar? – perguntava o lençol franzido. - Goza lençol. – respondiam as mãos que o apertavam às molas. – Tu que enrolas em ti o voo mais perfeito, aquele que não carece de asas para voar, no ninho de nós dois. Ó pássaro que me invejas, guarda as tuas asas para ti, pois eu guardarei as minhas para mim enquanto o ar reter a tua essência. - Abre-se a janela, entram ventos da memória. Recupero o dia de ontem numa simbiose perfeita com o momento presente e, sem outras explicações, tudo renasce à medida da imaginação. O vento continua a soprar o desejo de voar para longe; as molas continuam a forçar, a prender o voo. O lençol não desistiu, foram os ventos que quedaram para lá do momento e do espaço e desapareceram, e voltam mas, voltam apenas em efémeras e fugazes presenças. O lençol, seco de lutar, dorme por fim, e com ele dois corpos sucumbidos pelo contágio do desejo de voar.

sábado, 27 de novembro de 2010

irei de olhos vendados quando morrer
para que me nao vejam os que por lá me esperam
...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

baptizado

sobre a sua face pálida, inundada de ares frios, pululava um fio de água oleosa - talvez com um breve fio de azeite a seu lado - que gentilmente lhe cedia cor ao rosto.

todos, pávidos, ficaram mirando tal acto da parte de seus co-habitantes. nunca ninguém estranhou tal coisa como hoje.

as suas vestes - antes negras - foram levemente tocadas pelos responsáveis por tal cerimónia e púrpuras se tornaram.

as chamas, sobre seus pés e pernas, mãos e braços, sem queimar cumpriram o papel de dar cor à pele que se escondia por baixo dos trapos vermelhos (já que a cara já a tinha de novo).

a pouco e pouco diminuia o grau de admiração. ao fim e ao cabo não é nem será a última vez que se baptiza um homem recém-morto numa alheia aldeia do imaginário humano.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

em pleno Desacordo... desatei as amarras, não as de todos os barcos do cais mas as do próprio mar; agora, agitado por uma inquietação imprecisa e perto, demasiado perto para não ser atingido pela sua vastidão carinhosamente avassaladora, sou então dominado nessa titânica agitação dos mares, nessa agitação enfurecida por nenhuma razão e por todas, é preciso imaginar a agitação sensível, sentir ao extremo as vagas enormes e impiodosamente escuras que impelem o corpo a um desmaio demorado e sonolento em efémeras viagens vertiginosas com movimentos ascendentes e descendentes, como que congelam o tempo,surgem novas vagas, enormes e extremamente claras quando rasgadas por vários trovões que estremecem por dentro das nuvens exaustas de água, cem tons de cinzento emergem e pintam os céus num esbatimento suave e ofuscante, quero descansar e não consigo, tenho de esbracejar para me manter à tona, quero, em trémulos, fugazes e verdadeiros momentos parar de esbracejar, mas algo desperta e o mar acalma, como que premiando o concorrente survivor, como que estendendo-me o manto mais esplêndido de acalmaria jamais estendido a alguém... agora descanso, não por pensar que o mar não mais se agitará mas, por saber que agora, a tormenta também me temerá!

sábado, 13 de novembro de 2010

sopros (um)

Se a chuva fosse um código
indecifrável, sobre uma mesa
Em tons suaves soaria uma música
e o vento, conspirando contigo,
deixaria apenas felizes sopros
de uma porta aberta

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

soas-me a amanhecer lunar
e os ventos que me sopram sempre falam.

.sinto.
poderei tentar enganar-me, mas nunca o soube fazer

as pessoas têm um olhar igual, parece-me
e as serras continuam a ser a minha casa
e as castanhas continuam a picar-me os dedos

e eu existo

Janela

abro a janela nos olhos
retinas onde fixas estão as memórias dos risos
piscar de olhos, portadas ao vento batendo ritmos cardíacos
abro a menina dos olhos
e riu-me da expressão...facial da menina dos olhos
é a expressão das janelas quando estão escancaradas e deixam a chuva entrar.
abro as pestanas duas a duas
bem me quer...mal me quer...num inquérito à vida que passa
e as de cima tocam nas de baixo...as pestanas
e concluem que por vezes a vida bem nos quer...outras não
abro os olhos todos
e a chuva que está dentro dos olhos verte-se
os vidros dos olhos...salpicados...olham a rua
e num vai e vem eterno a vida desfila risonha ou triste...
só o verei se deixar o olhar à janela.

para o meu nómada João
V.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

tenho uma estranha dor no estômago
mas está tudo bem, no entanto...

nova vida, nova quebra, nova queda, nova subida
é tudo novo e assim será por mais tempo...

mando um abraço a todos vós já que me sinto sempre abraçado

beijo-te a ti, para já, fico quente e sossegado

terça-feira, 26 de outubro de 2010

boa noite

diz-me boa noite e se já não Acordar dormirei bem...
diz-me boa noite para que ela tenha a luxúria de um sonho que perdure pelo dia adentro.

diz-me boa noite quando for de outra matéria o meu ser,
diz-me de outra forma, num suspiro que vibre no peito que não tenho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

contrapõe-te
vira-te de frente para as costas da cadeira
parte-lhe duas pernas, encosta-a à parede
senta-te

enquanto isso, farei contas de cabeça
e vou tentar adivinhar por quanto tempo
te aguentarás de pé

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

entre as nebelinas anónimas do onírico
desesperei sem ouvir resposta.
porque nem sempre a certeza é a única verdade.

sábado, 16 de outubro de 2010

Vertigem e Espiral

«(...)perseguições pessoais? já não há ... esgotaram-se ... disso que se encarreguem os "piquenos". Persigam-se uns aos outros. Compliquem-se que "a gente" simplifica.»

«até lá podemos oferecer tantos produtos quantos forem necessários para reinar:
destruamos mercado local; criemos dívidas a nível abissal; enterremos velhos ódios e coloquemos em espiral todas as questões da vida individual; derrubemos barreiras económicas que a UE em breve nos receitará à vertigem "efeémeiesca"; calemos a boca a cada um pois só teremos uma boca para alimentar ... a de quem já a tem cheia...

facilmente conseguiremos aprofundar a espiral: "empurre com a barriga por favor"; "arraste mais um bocadinho para ao lado... ora aí está... era mesmo aí" ; "bolas de neve à vista".
mudemos os sinais das portas da segurança social... acho que há por aí numa dessas enormes lojas uns sinais muito mais interessantes (meninos, meninas, patinhos, wc, por aí...).

nem a língua nos pode parar... porque há de ser toda uma... a língua há de ser, finalmente, um valor para a troca, não identidade cultural... Que é isso? Pouca Vergonha! De que é que vos serve identidade se já não há perseguições individuais?»

TODOS NO CHÃO! «Acabou-se pá...
as perseguições agora serão feitas a todos de forma igual ... vós sois todos iguais e acabou-se a fantochada...»

«esforço colectivo...
...fim às reformas, fim aos benefícios...
para quê baixar salários aos senhores que nos dão toda esta oferta ocidental? para quê apanhar verdadeiras fugas ao fisco? o fisco está fora de moda...»

...

ai minha mãe...
...

en la plaza de mi pueblo
dijo el jornalero al amo
nuestros hijos nacerán
con el puño lebantao!
...
«calem-lhes a boca por favor, que ainda não acabei o discurso pá!»

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Declaração de IRS

Declaração de IRS


São tripas amor, são tripas...
Flores não são, são antes tripas amor...

Digestão.

Era a voz do povo um grito poético visceral, grasnidos de dor abafada pela luta.
Ás portas dos senhores da terra estendiam metros de tripas palpitantes,
reservando as extremidades, que se estreitavam numa proporção orgânica, para os presentearem mais tarde com belas gravatas. Gritavam alto sem palavras ou outros artificies: Com rejúbilo entrego meus intestinos grossos para que com eles possais fazer as meias de um natal; entrego-vos a pele gasta de trabalhar ao sol para que, dando-lhe um avesso preciso, possais estufar vossos bancos presidenciais; espero que não necessiteis de muito mais, mas acaso pela pátria ou por vossas excelências que me governais me sejam pedidos sacrifícios demais, eis-me aqui, sem outra vontade, com os meus pés, atenteis que já sem pele os laivos azuis e vermelhos também irão escurecer, mas têm calos pesados que darão um lindo pisa papeis; mas se não for do vosso agrado não vos preocupeis, com algum zelo vosso disponibilizarei ainda o meu outro, pois parece que, cerrado um pouco acima do tornozelo, sendo perfeitamente simétricos farão com certeza uma obra pós modernista se ainda encimados forem por uma seca flor vermelha, caso tenhais a bondade.

Absorção.

Senhores da terra –gritava o povo- vereis que maravilhas podeis ainda fazer com o meu dobrado esqueleto, na sala quinhentista, lado a lado com os javalis e os veados nem notarão a diferença seus ilustres convidados. Como me havíeis assim ajudado a desfrutar de vossas riquezas, numa quase mesma medida e nas restantes gerações diante de vossas mesas.

Secreção.

Ó colossal poderio! Senhores da terra mas não a dos meus pés, não enquanto for eu a pisá-la. Filhos da puta!

adormecidos

Será na pressão do tempo que está a causa da dormência?

Levanto-me, às 9 da manhã, ligo a máquina do café que a minha avó deixou armada,
bebo o café e como uma torrada,
visto as calças de ganga e, como que num ritual, acendo um cigarro na entrada da casa...

As nuvens já me disseram tudo por agora...
...só me resta ouvir-vos a vós.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

sem ar

Espaços do silêncio
preenchidos a negro,

exaltante esperança
perdida no vácuo.

Guardo perfumes, frascos, vazios,
dores enterradas na areia,
e parto num rumo quebrado
já tarde ... sem fuga.

Pérfidas lâmpadas
de uma noite triste,

amarelos sorrisos
sem maré, sem volta.

Regressos. Palavras vãs
inócuas, áfonas...

Já não sobram certezas
entre a solidão.

joao m sousa 16/agosto/2010
[uma das versoes deste mesmo poema...]

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Dois Pensamentos do Conde no Reino dos Perdigotos

Não sei porquê, mas deve de estar relacionado com ser eu a única pessoa a gostar de almôndegas com hortelã...
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O facto de eu não ter o hábito de contar o que faço com a minha namorada não tem a ver com querer esconder que tenho um lado muito sentimentalista. Apenas ninguém tem nada a ver com isso

Couves Frescas

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

chuva

C a i e m p e d r a s c o m o t e m p o r a l
a p a r t a m - s e n o ç õ e s d a t r a n q u i l i d a d e
e c o m o s n e r v o s p r o j e c t a d o s c o n t r a a l ó g i c a
p e r d e s - t e n a i r a
abraças o d e s c o n t r o l o
...

joao m sousa
9 do 10 de 2010