porque para além de poesia experimental também existem experiências poéticas ... todas as actividades de escrita estão em igual alcance do homem como ele deveria estar com a natureza ... aequum : equidade, imparcialidade, igualdade
domingo, 10 de outubro de 2010
noite noite noite
manto de luzes a subir a pulso o meu céu
e o breu do firmamento é nú e frio e voa ao vento
e eu em desalento procuro o amanhecer
queria que fosse já sol para ter raios de luz na escrita
circunscrita a prosa e a minha vontade de ser estrela
noite noite noite na sucessão dos dias
e tantas foram já que já não sei as horas
perdi-as no desiluminado céu que me entra pela janela dos olhos.
V
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Sátira Conjunta
...
sem espaços em branco para de negro preencher,
mas não foi saudade - foi só sentir falta,
não ter o sítio certo p'ra me descrever.
Mas há tantos espaços em alvo vazio
que esperam um dia para ser rasurados,
e só pela tarde, perto das 4,
é que dei por mim a escrever de novo.
João M.Sousa 07/10/2010 Castelo Branco
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Sigo meio-vivo
balanço na desilusão.
Sinto o prurido,
vejo o meus olhos, irados
[traídos pelos sentidos]
São induzidos em erro
[e choram a histamina.
Combatem a substância da falha.]
Para lá do azul...quem és?
Deitei os cabelos em novelos de nuvem
Abri o meu corpo em searas de filhos
Adormeci na sombra de amplas copas
Não acordei sacudida de chuva
Não ardi na fornalha de oblíquos raios
Molhei apenas a minha alma nos orvalhos
Gotículas de papoilas e outras pétalas
Recolhi-me em ninhos de cegonhas
Cantei nas asas melódicas dos gaios
A minha flor de Maio ficou púrpura
Ao olhar o mundo revi-me vezes sem conta
E a usura da vida remoeu-me o peito
Quantas vezes quis eu dormir ao relento
Em planícies em estrelas abertas de noites frias
Para aquecer o nascer do sol num grito
Arqueando as costas num gesto aflito
De quem não sabe ter prazer senão todos os dias
Numa exigência inegociável de sorrisos
De abraços e desejos lidos no vento
Assobiados nas cantigas de amor e tédio
Searas inteiras de Alentejos perdidos
E eu a ler as linhas do meu corpo como um mapa
Para chegar a mim como botão de campainha
E responder-me : quem és?
Quase
Quase
Atravesso
É do outro lado
Deste lado adormeceu
Acordo-me nos ruídos
O Sol esperguiça-se.
Noite
Quase
E pensar que hoje foi manhã
E amanhã será noite
Outra vez
d'água
sobre a testa franzida
escorre suor
pinga do nariz bate na rocha
chove
sobre a sombra dissolvida
água vem água vai
e ninguém se deixa calar
o silêncio
verte-se sobre a mesa
e cuspindo sobre a mesma
borram-se as letras
e fundem-se gestos
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
pedaço de um livro ainda em esboço
Serás sempre (...) um livro de viagens... um sopro de vento forte que me baralha as páginas; que me confunde o jogo de tabuleiro e me troca as jogadas, que revirou e me tirou do que eu chamava casa para habitar em pleno conforto(...)
(...)
Tudo isto para te dizer o que não cabe numa frase, num poema, num texto qualquer, numa música ou num som... dizer-te o indizível(...) Mesmo assim... encontro-te nas frase de um livro (...)
João M. Sousa
"Geometria do Adeus"
...ao qual te esqueceste de contar os ângulos.
A geometria do Adeus não tem ângulos...
A hipotenusa desse aceno derradeiro,
...não conta somas nem subtracções.
Tudo é esquecimento.
Barro disforme. Lodo.
As linhas, paralelas e perpendiculares,
serão somente aquelas que viciaram os combóios.
Nos últimos dias da partida, as formas são esquecidas...
Os teoremas, refutados.
A matemática será só de ida...
...esperarei por ti noutra praia...
Declaração ontológica
Como podeis vós julgar-me,
se em vossos corações impera a falsidade.
Como podeis vós de antemão condenar-me,
se é de sombras feita a minha verdade.
Sugai o meu sangue! ó espíritos presos.
Atentai que sois vós meros servos,
daquilo que a mim me libertou,
e a vós condenou.
Ó sociedade dos infelizes, pobres árvores sem raízes,
fazei troça de mim antes do meu partir,
para que vossos olhos ainda me vejam a sorrir.
Lembrai-vos de hoje com saudade,
como uma festa mansa no coração.
Recordai-vos que onde hoje vedes maldade,
será amanhã a vossa maior gratidão.
chorar no deserto
daí nascerá nada mais que nada ...
vazio ... nem mágoa, que não há mágoa que aí crescesse.
lágrimas derramadas em solo seco,
aí talvez.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
horas
horas, carros, pessoas de passagem, passar do tempo como carros a passar; sento-me no banco, banco velho dos velhos – sabes o dos velhos: vermelho vivo, da praça onde os velhos, velhos se sentam- é vermelho vivo o banco dos velhos onde me sento também. andorinhas e minutos inquietos, rápidos passam sem forma, nem pedem licença, minutos e horas como carros e pessoas, aquelas ca pressa, cheias de pressa passam ca pressa por aqui sem tempo de um bom dia, um bem haja qualquer, como carros, passam com a mesma pressa dos carros, eu espero, o tempo não! passa, vai passando como carros a passar e como as pessoas que não dizem bom dia para o banco de velhos onde estou, novo ainda, sem saber que não sabia ser velho. sentado no banco vermelho vivo, as horas, indiferentes, passavam no relógio defronte, mais lentas do que os carros e do que as pessoas apressadas que não diziam bom dia, mas mais rápidas do que eu, novo ainda, sem saber que não sabia ser velho. parou um carro, sai uma pessoa e diz bom dia; o tempo, por momentos o tempo parou também. não respondi, levantei-me e fui-me embora.
nuno Cacilhas
caminho nocturno
e encontro novas razões de existência
calculo a distância entre o meu rosto e a pedra
imaginando, lentamente, como posso cair sem partir o nariz
doce vinho esse, ao almoço, que afasta o Cão do medo urbano
e nos conduz directamente ao âmago da nossa mágoa
grito, PORRA, fujo, SAI-ME DA FRENTE e, finalmente...
fecho a porta à chave para não me seguirem...
mas peço companhia à minha sombra, para me não deixar só
noctívagos humanos, noites sem sono, com a cabeça megulhada
em negros e sombrios pensamentos da insónia colossal
saiam de casa, sigam-me a sombra, corram comigo daqui
(as cartas que eu escrevi a morcegos de pedra,são meras perdas de tempo, prantos de homem solto,
e a luz que me ofusca é só mais uma desculpa
para ficar parado nas ondas de um mar negro
obliterado, à nascença)
(... 2)
Decide-se não dar importância
a absolutamente nada.
Belisco a pele... e não sei nada...
puro vazio.
Aquele dia em que não se dá o braço a torcer
Resiste-se a todas as fraquezas da emoção.
ignora-se quem nos enfraquece.
Acordamos com força, cheios de certezas,
partimos, sempre em frente, para onde for,
com a certeza de que nada terá real importância.
Eu sei que há sempre esse dia,
só não sei onde ele se esconde.
João M.Sousa 29/9/2010 EX-100 a caminho de Cáceres
(...)
Voltei onde já estou há tempo demais
mas a solidão é só aparente
afinal tenho cá quase tudo
Não sei bem o que me falta para além
daquilo que eu sei que não está.
João M. Sousa 24/9/2010 Montemor-o-Novo
"Tu" ou "O poema a vermelho"
domingo, 3 de outubro de 2010
Antão (Sem Títulos)
A cidade berra-nos aos ouvidos ... "quem és?"
Porra... é que não há objectivismo que nos valha.
sonharemos então ?! pois claro que sim...
... ai de quem me disser que o sonho é só sonho ...
e se for? aqui na palavra não desígnio ... nem certeza ... nem nada...
a solidão das palavras faz-nos então passear entre as ondas do silêncio desejado
mais tarde ou mais cedo fecharei os olhos vendo o sol queimado, nas pálpebras
e os fumos que nublam as luzes citadinas, serão faróis para os sonhos, para o mundo por nós criado.
o ser humano , já te disse em tempos , não se contenta com nada que o sol lhe possa dar
é triste...
tanta complicação para, no fundo, ser tão simples... antão? não é simples?!
...a palavra de ordem é "CAOS"
...a palavra objectiva é "ABSURDO"
João M. Sousa ... A Rodrigo Antão
talvez em 2009, talvez em Castelo Branco, talvez em Portugal