domingo, 4 de maio de 2014

Ars Poética

(Aproximações ao receituário para a gestão do medo aquando da criação)


Falemos da fértil rotação da carne,
da inelutável e generosa geologia dos corpos
- o sonho do minério inicial –
Falemos da assustadora anunciação das formas no tempo,
da sacra falibilidade dos motores teóricos.
- mãos rasgando dos vidros as chaves –

Invoquemos a louca gramática dos frutos,
a ébria fermentação do átomo, do seu sangue.
A semente:
Crianças hibernando nas ruas, ou o medo delas.

Sentir o coração pesando toneladas
nas laterais da garganta:
Paredes que são nas mãos a fechadura.
Desalojar a garganta
e desestabilizar a líquida orientação dos mecanismos;
Apontar a ideia ao centro do peito. Disparar.

Lei zero da termodinâmica:
dois sistemas em equilíbrio térmico com um terceiro
estão em equilíbrio entre si.
aumentar bruscamente o lume do terceiro sistema
e aguardar nos flancos os cristais.

É um ofício lento.
Exige do terror um medo de si próprio. Exige algum terror.

Lamber dos olhos o excesso de cristal. Rir de medo.
- o riso criou a costela, a sua necessidade.

Incidir a atenção na inconstante desordem dos sistemas.
Desequilibrar. Saber arder. Saber do corpo as melhores lenhas.
Saber recuar e avançar as fogueiras. Recusar um padrão térmico.
Retirar das crianças frias a energia. Potenciar a transformação.
Reciclar o medo.
Transformar. Colocar problemas. Acender as luzes por instantes. Ver.
Deixar o terror borbulhando ver-se a si próprio.
Raspar na pele a resina que se vai libertando.
Injectá-la no osso. Fazer doer. Apagar a luz.
Deixar o terror ter saudade de si. Deixá-lo chorar.

Não saber. Semear confusamente.
Respirar o odor fecundo da sementeira
e destruir lentamente as simetrias.
Começar a amar o processo.
Chorar, se preciso, sobre os materiais. Demonstrar comoção.
Dilatar a verdade. Esticá-la. Usar ferros para escachar a verdade.
Levar à boca algumas pedras. Provar.
Lançar a matéria – o corpo – ao mar. Aguardar o afogamento.
Não atribuir nomes. Assegurar a inexistência de sexo.
Afogar: preencher com sal.
O sal rebentará por dentro os pequenos olhos.
Deixar rebentar. Cegar. Desinfectar.

Parar um pouco as coisas rápidas.
Potenciar o amor ao movimento.
Fazer amar o movimento, lançar-lhe com violência
alguma inacabada inocência. Trair.
Rectificar os níveis de entropia…

Baixar bruscamente a temperatura:
Enrijecer a massa. Deixar a energia interna sonhar um pouco.
Adicionar fumo. Fumar por dentro. Poluir.
Fazer chorar, por dentro. Unir as extremidades mais afastadas.
Iniciar a subida à temperatura absoluta. Iniciar a desordem-mãe.

Lançar o vinho novo sobre a gema. Enlouquecer os ferros.
Aumentar. Violentamente.
Aumentar o volume, a música. Cantar.
Iniciar a oração:
Abyssus abyssum invocat…

Gritar. Amar o processo.
Amar matar e fazer viver a coisa.
Amar desequilibrar.
Rebentar! Levar à criança bela o seu belo medo de si.

Dilatar. Esticar os conceitos até rebentarem. Dissolver.
Dissolver tudo. Queimar.
Diminuir espaço para a reacção. Minimizar.
Implodir!

Acordar.
Retirar a casca. Emocionar-se.
Dizer: meu filho!
Cortar os arames, soprar o pó. Libertar.

Aceitar que, sedento, ele nos mate…
Não esperará de nós
mais que o renascimento.


                                                                                                                                      Nuno Mangas-Viegas
                                                                                                                                           (Tavira, 12/2013)

terça-feira, 22 de abril de 2014

DESLIZE & O POEMA (A)CORDA (ao vivo) - #4

Deslize & O Poema (A)Corda Texto de António Ramos Rosa ("A Espessura é Branca", in Círculo Aberto) e Nuno Mangas-Viegas ( "Intersecções com A. Ramos Rosa"), gravado no passado dia 12 de Abril na Estudantina de São Domingos de Rana. Composição musical de Deslize ( Hélder José e João Sousa)




sábado, 5 de abril de 2014

poema de comboio #35

porque é que a noite acontece?
aquece-me a alma como um aquecedor de halogéneo
o mau génio desaparece da órbita solar
restando a lua restante lua que parece ser meu guia

a gata corre, negra tal a noite, na tal noite todos os dias
e pendura-se nos cortinados, e lambe a ferida tratada,
e chora quando o aquecedor se apaga

um soneto intercalado fala comigo agora e enternece-se
ouvindo os miados de tal gata semestral
mas não tem nem alexandrino nem moral
ou lógica que à gata apeteça ou a mim me prenda atenção

e o soneto grita com a gata, que ora derruba o isqueiro para o chão
debaixo do colchão estão mais mil coisas que ali esconde
intercalada entre o halogénio e o génio pardo de gata negra.


Para mais informação vide foto da gata negra aqui.



sábado, 22 de março de 2014

poema de comboio #31

A sua imaginação rasgava as névoas indecisas que, diante da inteligente maldade, a sua inexperiência despregava como uma máscara casta e límpida cheia de placidez. Estas explorações fizeram-na muito cedo mulher, preparando-a a compreender mistérios e umas meias frases que ouvia aos gatos-pingados, se passavam por ela
ALMEIDA, Fialho de. A Ruiva 


estou de novo no mesmo banco
um comboio redondo
este é praticamente meu
o meu comboio redondo
um poema de comboio vem comigo
tu ouves-me falar da ruiva
e perguntas-me se será talvez
porém os miseráveis portugueses
eu não sei
nunca li outros miseráveis que não daqui
nesta mesma língua

há um poema dentro dos teus olhos
mas não é aquele que eu quero ler
há outros olhos que costumam ser o tu deste poema
e que me interessam muito mais
este é o meu comboio
e neste poema ainda sou eu que escrevo


espero e penso que sim

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sem poesia...



Sem poesia...
As pedras de calçada soltam-se
deixando a terra despida e néscia,
Suas sombras aprisionadas
revoltam-se perante tal facto.
Os corpos embebidos em álcool,
Gélidos, inertes, arrojados
em seduzir a terra (sem rumo),
Num grito desesperante e vertical
em busca do seu vício.

Sem poesia...
As pedras de calçada reclamam 
o silêncio,
O vazio















A folha de papel é apenas uma folha
pálida, invisível,
paradoxal a sua existência,
sua criação (sem rumo)
sem nexo, sem vício,
Sem poesia...


Marco Mangas @ 14 de Março de 2014

sábado, 8 de março de 2014

poema de comboio #29

eu pensei que nada temia a chuva quando se aflige a vizinha com o barulho dos homens de lixo

fazia uma gemada com as paragens do autocarro e pensava no fim do passe, passe por favor, social e lividamente.

coloquei um ponto final no percurso zangado e sem curvas aflitivas, preocupadas com o mau estado do piso. piso em mau estado, Cláudio

uma letra maiúscula na leitura do teu conto sem espaços sem parágrafos suficientes para uma pausa do andar coxo por entre as linhas do metro

os produtos incorrigíveis passam a correr com os putos na rua ejaculando sangue nas paredes inúteis. são modas distintas a de foder ou pintar uma parede e no entanto corres para o teu filho.

600 palavras são menos que 800 – seiscentas seis sentas oito sentas – para se sentar na mesa pousava o braço veloz e olhava com brilhos de pedra, furando o baile pós-medieval que na chuva se rasgava, mirava tudo na sua mira titânica do adeus opaco

sábado, 1 de março de 2014

poema de comboio #13


passa-me sempre esta imagem e parece que soa sempre rápido demais. não houve problema algum, mas andei três dia correndo a cidade à espera de resolver tudo no mesmo dia. na mesma tarde aparece-me este deserto. até os jardins de entrada da faculdade estão amarelos. o meu sorriso dói-me. a cabeça está pesada e não consigo achar piada alguma ao humor cínico da sucessão de eventos num período de tempo contínuo.

eu existo e sei que existo porque me dói as costas e porque o peso de ser é tão sarcástico como a mesma existência. não há outra maneira de o dizer sem ser estando calado. não haverá outra possibilidade de me fazer compreender. os actos não chegam. as pedras não voam com a velocidade que eu desejaria para elas. custa tanto acartá-las num bolso toda a vida para ver que o futuro delas é mais incerto que o vidro que não conseguimos partir.

tanto tempo. tanta coisa gasta. tanta pedra polida e sapatos rotos e sem atacadores coerentes. não havia mais nada para comprar. não havia mais dinheiro na conta. conto então o meu segredo e chego à conclusão que estava tão bem guardado. que desperdício. de tempo. de tanta coisa gasta. sinto, sinto que sim. sei, mas não sei quando e porquê. acertaria em cheio nesse vidro se apenas a pedra não padecesse da mesma falta de vontade de viver.

um projéctil sem projecção. mas que merda. mas porque é que perco tempo? mas porque é que tenho tempo para perder? mas porque é que há tempo? mas porque é que esse tempo que existe não nos pertence e, mesmo assim, o perdemos sempre? querias o tamanho xxl? uma explicação "jumbo size" e uma certeza em tamanho americano número nove e um quarto. querias uma vida toda num catálogo de roupa, tendência de outono. percebe-se


in Diário Liberdade.org

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

regresso a casa

eu não tinha outro remédio.

deduzo que a porta me leve para outra divisão
divido-me na escolha de uma caminho
localizo a fonte da minha incerteza e espero, espero
espero e desespero mas nunca estou sozinho.
dou o passo, após pegar na maçaneta lentamente
e espreito a divisão que me espera.
tudo tão bem calculado
um exemplar corredor onde pedaços de parede pingam
trilham-me a passagem, deixam-me sem remédio
eu não tenho outra maneira de passar.

deduzo que esteja na altura de assumir um problema
mesmo que não seja meu, mesmo que nunca chegue a saber qual é -
qual era. desespero. mas não sou eu, é o nome.
eu não tinha outra maneira de resolver o problema
sem assumir o problema, descobrir o remédio.

no fundo de um corredor existem umas escadas
cada degrau é espelhado. cada espelho espera um passo meu
descendente, pausado. eu sigo caminho
e leio em cada espelho uma expressão facial,
um cruzar de pés, um rasgão nas calças,
um sentimento de perda, um problema.
distraio-me por momentos e tento chegar à porta
uma outra porta, rente ao fim das escadas.
na porta há uma pequena cruz vermelha
parecia uma caixa de primeiros socorros
mas não tinha remédio.
seria a última divisão
espero, abro a porta
espero, cada espelho espera também
nas minhas costas
espero, deduzo que a porta me leve para nenhuma divisão.

eu não tinha outro remédio.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

o deserto

- Sou um corpo parado olhando, absorto, o deserto! dizia ele
eu não dizia nada. Ainda nada me rebentava nas mãos.
Era meio-dia. O sol queimava nos cabelos uma chama nova.
Caiam gotas gordas e frias sobre as costas ardendo,
caiam como caem os corpos de Homens maduros
violentamente...
corpos intactos e maduros de Homens caindo de algumas árvores.
era meio-dia.
Entravam rápidas nas costas,
acendiam por dentro os esconderijos, rebentavam
a sua luz nas hortas menos propensas.
Ele estava parado, absorto
partindo em pequenas porções para dentro das coisas do deserto.
- Sou um corpo parado, loucamente parado. dizia.
As coisas caiam-lhe nas costas vermelhas
entravam, como Homens maduros, violentos
caindo das árvores para dentro das costas. parecia doer.
Eu não dizia nada. e já nas mãos
cresciam sistemas, coisas do deserto complicando-se.
Entravam muito frias. ardia. fazia rir.
- Sou um corpo loucamente parado, complicando o deserto. dizia.
corpos inteiros caindo de árvores inteiras
duros por fora, com casca, caindo...
entrando, rebentando nos esconderijos a sua luz prometida,
iluminando as costas. uma chama nova.
Eu não dizia nada. e já tudo saia de mim, violentamente
contra as coisas do deserto. era meio-dia.
- Sou um corpo complicado, loucamente parado. Sou o deserto! dizia ele.
o deserto nada dizia.

                                                                                                               (Nuno M.-V. Tavira: Jan/2014)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pretérito


Mais-que-imperfeito
o olhar dramaturgo daquele penhasco,
Seu pretérito totalmente desfeito,
O mar, o seu verdadeiro carrasco…

Mais-que-perfeito
Sua sombra em forma de casco,
Mais pretérito, mais conceito,
Mais, mais e mais…

…E menos-que-imperfeito,
Por mais que desfeito e refeito,
Nunca será: menos-que-perfeito
O seu pretérito.


Marco Mangas @ 23 de Janeiro de 2014

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

a)

Escrevo-te porque não tinha mais nada para te dizer. Não sei se reparaste como pisca a luz em standby, vermelha, do televisor que nunca se ligou pela minha mão
Uma mancha de cinza no lençol branco serviu de pretexto para um texto declamado em contextos desmesurados pelo espaço. Escrevo-te para não ter de me ouvir, como um prato que se aquece para não se comer frio
Somos todos da mesma matéria e tudo bem, mas o fogo queima conforme o volume do corpo e o nível de tédio que o ocupa. São chamas no olho do topo [áreas medidas com estranhos aparelhos da geometria que não descrevo] São letras na chama do dia [a meteorologia não responde às questões da vida]

Sem mais nada a acrescentar despeço-me cordialmente.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Enunciação do corpo sobre os laranjais

Anoitece sobre os laranjais...
turva-se a composição do rosto
a definição
o corpo fecha-se, talvez em cubo.
Impressionam os céus, sem luzes
para guiar os exércitos
- a memória ergue espadas onde plantara as glicínias -
Um tímido rumor de camas
anunciando o rasgo do corpo...
és tu quem sai, vasculhando pelas chaves
apagando dos mapas o sul das tardes
és tu a jangada que se arreda no mar
sonhando já o deserto milagre das ilhas,
negando a urgência da linguagem e o amargo sarau.
Implacável, este trémulo desenho da lembrança
quando as visões exemplares se diluem em teorema
nas paredes. o corpo: erma península ardida.
Anoitece.
e sou pedra, o furtivo pasto
a dura duna sobre a nuca...
a demorada escadaria para o altar
onde estás.


Posfácio:

Esta é a mão, o seu milagre
digo mão como quem repete um tempo
talvez o cansado início de uma rota
o momento da órbita que regressa ao ovo
Digo mão segurando o tempo
como quem colhe do peito alguma calma
talvez uma pequena casa abrigando a chama do vento.

Digo passado e uma súbita raiva se levanta
um candeeiro a petróleo pela noite
talvez a divindade tocando o rosto.

Digo vida e ei-la, vivente
como quem evoca séculos e séculos de migrações
para dentro do segundo, este...
Digo pedra e terra e mar
e o seu sabor aporta nos lábios
as suas temperaturas - graus de febre -
na mão tomadas.
Digo estrelas e alma
e a lágrima surge
o milagre da evocação emociona-se...

Digo: anoitece sobre os laranjais...
e tudo regressa à solidão do corpo
uno, ermo
nu


  (Nuno Mangas-Viegas : Tavira, 7 de Setembro de 2013)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cinzas


Acesa ficou a noite,
Caída a sua chama:
rasgada, incandescente,
entrelaçada com as palavras…

As folhas suicidaram-se,
A expansão mutante
de criaturas reinventadas,
soltas, desinibidas...

-Cinzas. 



Marco Mangas @ 25 de Outubro de 2013

terça-feira, 8 de outubro de 2013

poema-vida zero

Posso descrever uma vida
num poema, com apenas quatros frases
e uma interrogação.

Perto da minha casa há um terreno
que nem sequer se cimentou.
Levou apenas com o pó em cima
e com o tempo acinzentou.

E as ervas? Lutam como tu para comer.

domingo, 7 de julho de 2013

Promessas Inquebrantáveis (Sem Nexo 1)

Quem, tu?
Tu! Que vens do pó das coisas acesas e termelicantes!
De todas as coisas que se agarram e contornam, apareces tu.

Vais chover de novo numa curva familiar,
Boomerang autista de permanência; opaca e inatingível.
Vais ficar em pranto estático, um dolo roxo de perdões.

Vais... Vais para a puta que te pariu!
Era o que me faltava agora também, estrebuchar no meu lixo.
O teu é tão mais verde de inquietude e medo; tão mais saboroso.
Quero roer-te os traumas e lamber-te as marcas das pancadas;

E quanto às feridas (quantas todas foram):
verter o sal das minhas lágrimas em riacho,
etilizar-te o sangue de ontem, numa defunta propagação de vida:
- Belisco-te os olhos no sussurro chuvoso d'ontem.

Mas tem que ser sempre aqui, neste lugar de almas tuberculosas,
de marquesas caducas de brilhantismo
do anteontem que queima a pele bolorenta
que aquece e distrai o corpo magoado pelo vento.

E o que é preciso:
É ver no tempo todo o segundo;
É despachar na completude da sua passagem todas as horas - as outras;
É baralhar todos os caminhos cruzados da ausência;
É raspar da alma as sobras de ilusão.

Deixar uma desilusão calma elevar-se em forma de vontade,
Definhar em encolhimento confortável e fixar uma promessa de jura impossível:
"todos os prantos possíveis passarão por mim a flutuar,
para que possa tocar no chão apenas enquanto peso morto."

sexta-feira, 28 de junho de 2013

"Tela branca"




























Estou perante uma tela branca,
Seu fundo encoberto de branco,
Traços oblíquos, igualmente brancos,
Outro na horizontal, (igual)mente da mesma cor,
O suporte que serviria de argumento, foi roubado…

                        …Manifesta-se um poema voraz,
                        As vozes presentes entoam…
…e penetram no espaço esbranquiçado,
E, em sintonia com a música absoluta,
O som da própria imagem,
O cheiro a branco jasmim,
É real,
O silêncio verbal transfigurado em pura paisagem,
Realidade visual, fragmentária,
Vertigem lúcida…

Todas as cores estão presentes,
Nada foi capaz de as devorar,
Nem a ausência de cor criada pelo breu da noite.
A tela branca ainda aqui está:
Seu fundo encoberto de branco,
Traços oblíquos, igualmente brancos,
Outro na horizontal, (igual)mente da mesma cor,
O suporte que serviria de argumento, continua desaparecido…


Marco Mangas @ 27 de Junho de 2013

terça-feira, 18 de junho de 2013

fim de emissão

[chovia no sinal digital terrestre]
Soltem-se presos que as grades trovejam...
a Amnistia sofre de fome.
[muda de canal]
São questões morais que almejam
os Tablóides que já não consomes?
[fechavam-se jornais em massa]
Audiências que não querem guerras
Outras que as consomem feras...
Soltem-se os gritos de sangue!
Corram os passos de um morto!
[streamings, vídeos, streamin']

O pó levantado não seca,
o ferro queimado só não se dilui,
as lágrimas falsas de um espectador
que comprou o pensamento
mas que o não sabe ver...
[desastres no canal 5]
Os rios já podem desaguar.
Soltem-se as águas e quebre-se o mar
Corram os passos de um morto
Desligam a vida de acesso remoto...

[na tv, no pc, wc, kevlar vest]
Olhas para o televisor
Partilhas uma notícia pela manhã
...Mas que fazer dentro da tua casa?
As balas já não furam O teu ecrã…

Abyssus abyssum invocat

  
    Rezam os antigos que uma boa morte é morrer-se à mesma hora a que se nasceu. O ciclo fica fechado e consumado. Quando te contei isto, naquele final de tarde chuvoso no jardim público de Évora, notei a tua curiosidade. Disfarçaste, para que eu não tivesse notado que te agradara a ideia. Nem acredito que passaste os teus últimos instantes de vida atenta ao relógio, para que tudo se cumprisse.
   (...)
    Recordava talvez a minha infância quando saíste de casa sem a generosidade de uma palavra. Escutei a porta cerrar-se mansamente, como que receando a sua função. Fiquei olhando pela janela embaciada o teu lento afastar. Fundiste-te na neblina, incorporaste um tempo sem conjugação, uniste-te à desolação cinzenta do interminável asfalto.
    Esperei-te toda a manhã. A esperança no teu regresso guerreava com o receio de nunca mais te ver. Os cigarros ardiam em meus dedos. Um a um construíam uma névoa interna. Mas não. Tu não voltaste…
    Só mais tarde notei a forma como arrumaras o teu quarto. A cama feita a régua e esquadro. A secretária desocupada. Na mesa-de-cabeceira, uma folha dobrada em quatro acautelava uma frase escrita tremulamente: “estar perdido é somente encontrar o que não se estava à espera”. Fui eu quem te a disse. Não recordo o contexto. Recordo somente que confirmaste a ideia. Beijaste-me. Tu beijavas-me tantas vezes. Beijavas-me com os olhos humedecidos. Como se no teu íntimo soubesses já que não irias voltar. Eram assim os teus beijos: beijos de partida...
(...)

                                             (Cáceres, Dez. 2010)

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um pretexto

Levámos anos a perceber isso, que a tua pele é activada por muito
mais do que um murmúrio, algo entre o que há de silêncio
no meu corpo e de grito no mundo que só eu conheço.
E as covas que em ti não covas mas concavidades,
e a vontade que em ti não vontade mas desejo,
e o amar que em ti não amar mas o sopro a que o meu corpo se sujeita
de cada vez que tu... Saímos de uma mesma possibilidade e tornámos
vago o mistério que nos envolve,
conhecêmo-lo,
mas vamos além do complexo que nos ordena.
E sabemos, os dois, sabemos,
como é simples o intrincado que nos arrasta pela vida fora
e nos impele a viver.
Mas a vida pouco sabe dos nossos sons,
das nossas crenças,
do vago que nos trouxe até ao que somos
nem conhece o pretexto que criámos apenas para que
nada se nos acerque.
Seria indelicado falar-lhe de tudo isso.